« Madrid e Barcelona — Perspectivas | Entrada | A Cultura Científica na Televisão Portuguesa »

março 25, 2004

Ainda a Guerra das Ciências

O Aviz resolveu escrever umas palavras sobre a versão portuguesa e, como não podia deixar de ser, mesquinha, da “guerra das ciências”. Aflorada neste texto e abordada neste outro, a “guerra das ciências” trouxe consigo, para este blogue, alguns comentários que referem directamente a quezília entre António Manuel Baptista (AMB) e Boaventura Sousa Santos (BSS). Como os leitores puderam constatar, não existe um posicionamento claro e evidente das tropas porque, segundo consta, uma atitude rude e autista do autor afastou muitos académicos e investigadores científicos de um claro apoio às teses de AMB. O Porfírio Silva chegou a escrever, na sua Máquina de Turing, a seguinte inconfidência: De há uns tempos para cá que ando com vontade de atacar a retórica de BSS, mas AMB não deixa espaço nenhum: porque é um provocador, um praticante do estilo panfletário que julga ser seu dever defender a santidade da ciência. Assusto-me só de pensar que, criticando BSS, possa parecer que defendo AMB.

Mas o Aviz fez aquilo que muitos cientistas tiveram pudor em fazer: posicionar-se claramente ao lado de AMB, contra BSS. Será que o Aviz levou o "patrulhamento ideológico" — expressão que tanto gosta de utilizar quando se refere a certas atitudes de outros blogues — até aos livros de AMB e BSS? Assim parece, porque um verdadeiro defensor do rigor científico contra o relativismo pós-moderno dificilmente escreveria que,
Provavelmente, a idade moderna introduziu uma ruptura qualquer: as artes tornaram-se mais substantivas, menos preocupadas com a natureza do invisível, enquanto a ciência (nomeadamente a física, a astronomia, a matemática) passou a lidar precisamente com esses valores que transportam uma «beleza terrível» (o verso de Yeats também serve): não apenas o invisível, mas o improvável, o caos, as ondas, o tempo.
Não, não poderia escrevê-lo. Pelo menos num texto que evoca a disputa entre a urgência da precisão e a inexactidão ornamentada. Apesar da sua posição, o Aviz não parece ser um fervoroso adepto do rigor científico. O seu texto poderia mesmo aparecer num segundo volume do Imposturas Intelectuais, dedicado à loquacidade mais inofensiva, mas mais ingénua.
Até José Saramago já entendeu que o caos é uma ordem por decifrar*. O Aviz ainda não percebeu que a ciência não é uma ordem por ocultar.

Carlos Miguel Fernandes

*José Saramago, O Homem Duplicado

P.S. Stuart Kauffman, John Holland e os seus colegas tentam, no Instituto de Santa Fé e na Universidade do Michigan, decifrar a ordem do caos. Dêem uma passeio por este mundo da Complexidade e Auto-organização. É urgente libertar a teoria do caos da sua apropriação como termo de uso corrente e como lenitivo para todas as angústias pós-modernas.

P.P.S. Só depois de colocar o texto no blogue é que reparei que a entrada citada da Máquina de Turing tem um título muito semelhante. Peço desculpa ao Porfírio Silva por este plágio involuntário.

P.P.P.S. A ligação para a recensão do livro O Mistério de Todos os Mistérios, de Michael Ruse, referida no comentário de João Aldeia, encontra-se aqui.

Publicado por CMF às março 25, 2004 04:48 AM

Comentários

Não estou nada aborrecido com o seu plágio involuntário. Até porque ele se traduz num post interessante. Fundamentalmente porque ajuda a mostrar que qualquer tentativa de tornar simples o que está em causa na "guerra das ciências" só pode ser uma grosseira simplificação. Se as pessoas não levam o automóvel a arranjar a uma florista, porque será que toda a gente acha que já percebeu todos os problemas filosóficos que as ciências levantam? Abomino tanto os filósofos que falam ligeiramente do conteúdo científico das ciências, como abomino os cientistas que falam ligeiramente de problemas filosóficos que não compreendem. E, claro, a ignorância é sempre atrevida. AMB é um exemplo disso, em assuntos de filosofia da ciência. Quanto a BSS, continuo a preparar-me para uma leitura descomplexada da sua retórica pseudo-libertadora face à ciência.

Publicado por: Porfírio Silva em março 26, 2004 10:24 AM


A polémica vai provavelmente reacender-se com o novo livro de AMB «Crítica da Razão Ausente», que ainda não li e por isso não adjectivo. Mas, depois daquele espesso volume do BSS «Conhecimento Prudente para Uma Vida Decente», em que ele convocou uma hoste impressionante de pensadores amistosos, seria estranho que ninguém do universo dos visados surgisse a campo. Mais uma vez, tem de vir o velho Professor AMB fazer as despesas da comunidade científica no debate que se impõe. Mais ninguém ainda apareceu, apesar de acharem que ABM não é o seu representante na discussão. Pois que se manifestem então e saiam dos casulos universitários, para dar um contributo necessário nesta dita guerra das ciências. Se aqueles que julgam ter as ideias mais acertadas, não se dão ao trabalho de as expor, é natural que prevaleçam as outras, evidência elementar, como diria o nosso distante detective para o seu prestimoso colaborador e amigo Doctor Watson. Aguardemos, portanto, o despertar das boas consciências, que têm tardado a intervir numa polémica, apesar de tudo útil, por permitir desfazer alguns graves equívocos patrocinados pelo conhecido Professor de Coimbra.

Publicado por: António Viriato em março 29, 2004 01:49 AM

António, não sei se podemos considerar o AMB como um justicerio solitário, injustiçado pelos seus pares. Outros cientistas têm contríbuido com mais ou menos empenho nesta "guerra das ciências". Lembro-me agora de Jorge Buescu que, com os seus acessíveis e populares livros, fez o seu papel no combate ao relativismo contra a ciência e à crendice e ingenuidade de muitas pessoas.

Publicado por: CMF em março 29, 2004 02:19 AM


É verdade que alguns, como Jorge Buescu, Nuno Crato, combatem a crendice e o realtivismo pós-moderno nas ciências, mas referia-me, em particular, à falta de comparência da maioria da comunidade científica e à sua manifesta falta de coragem em afrontar o BSS, por medo de desagradar a uma certa camada social bem pensante, esquerdizante, por regra, que predomina na nossa Comunicação Social, dita os padrões, as modas e os estilos do que ela julga que se deve pensar ou perfilhar com bom, progressivo, correcto, etc. Aqui é que eu encontro o deficite actual da nossa comunidade técnico-científica. Estarei sendo injusto, por desconhecimento ? Leio jornais e revistas, quanto baste, e raramente topo com essas intervenções. E mais vamos ver quem aparece agora a entar na liça. Haja paciência.

Publicado por: António Viriato em março 29, 2004 02:40 AM

Também acabei de ler "A Crítica da Razão Ausente". O estilo de AMB é realmente difícil: parágrafos embrulhados, ironias frequentes e mal explicitadas, etc. No entanto, quanto ao essencial, não há uma falha no seu raciocínio, e faz citações, e apresenta provas (oh ignomínia!) enquanto que os seus mais directos opositores nesta polémica (Boaventura e Eduardo Prado Coelho) são autênticos passadores a tentar conter água.

BSS limita-se, sempre e apenas, a ostentar o currículo das suas publicações, frequentemente de forma desonesta, tal como é o caso do livro "Conhecimento Prudente para uma Vida Decente", que não confirma as suas estapafurdias metáforas, mas é um argumento "de peso", literalmente, num país que não lê (até porque não sabe) mas compra para a estante. Na introdução deste livro BSS tenta iludir o leitor (ele sabe que muitos não passarão da introdução e de um folhear saltitante) afirmando ou insinuando que os diversos autores lhe dão razão, quando chega a acontecer o oposto, como mostra AMB.

Não me espanta que haja pouca gente a colocar-se ao lado de AMB: não estamos nós na era do politicamente correcto? Mas é bom que se definam os campos: em qualquer das posições, ou numa qualquer outra, desde que não seja a equidistância oportunista.

Recentemente foi publicado entre nós um outro livro, "O Mistério de Todos os Mistérios", de Michael Ruse, que explora este novo filão, de modo igualmente oportunista: analisa (?) a vida e obra de diversos cientistas da área da biologia evolucionista, procurando responder à questão sobre se as suas descobertas foram ou não "influenciadas" pelas respectivas posturas ideológicas, ou até interesses mais mesquinhos. Aparentando seguir o método científico (quer dizer: citações qb) trata-se apenas de um olhar subjectivo, jornalístico, disfarçado de "case study" (o inglês fica-lhes tão bem...) sobre as vidas dos ditos. Ao contrário do que afirma Desidério Murcho, é um livro para agradar a gregos e a troianos: pudera, há que vender!

Porém, se poucos cientistas se aventuram a apoiar abertamente AMB, alguns colam-se, com o devido pudor, aos relativistas, como é o caso de Alexandre Quintanilha, que escreve o prefácio para este livro de Michael Ruse, e esteve no lançamento da desonesta colectânea de BSS.

Neste "país relativo", neste "país de poetas" que condenou os seus primeiros cientistas (os ossos de Garcia da Orta queimados pela Inquisição, linda metáfora, não?) BSS leva a melhor. Compreende-se, por isso, a irritação de AMB.

Publicado por: João Aldeia em março 30, 2004 01:22 PM

O João Aldeia referiu um texto de Desidério Murcho, mas não conseguiu colocar a ligação (acho que não é possível fazê-lo nos comentários). Já disponibilizei a ligação, no final do texto "Ainda a Guerra das Ciências", para quem estiver interessado.

Publicado por: CMF em março 30, 2004 08:48 PM

Carlos, já agora, comentando a partir do teu post de cima:
Peço-te que me indiques uma pessoa -- uma única -- que tenha ficado baralhada com a frase do jornalista, ou mesmo a do professor Marcelo. «Ai... Não percebi. Terá sido por causa das condições atmosféricas? Ou por causa da disciplina? Porra, estes humanistas, não são nada rigorosos. Bonito, agora não consigo perceber porque é que...» -- não estou a ver nada isto a acontecer.

Em contrapartida, pergunto: quantas pessoas, depois de ler a frase «BSS é um relativista pós-moderno», mais ou menos proferida por, entre outros, António M. Baptista e Nuno Crato, ficaram a pensar que o BSS defende a «doutrina, permanentemente tentadora, que afirma que (...) a própria verdade é relativa ao ponto de vista do sujeito.» (p. 385 do Dicionário de Filosofia, da Gradiva, para citar uma obra anti-relativista, traduzida por uma equipa anti-relativista e publicada por uma editora anti-relativista)?

E respondo: acho que, pelo menos, a generalidade dos leitores do Expresso; e, provavelmente, a maioria dos escritores desta posta.
Sem querer ser chatinho -- já aqui escrevi sobre esta questão -- incomoda-me bastante a balda com que algumas pessoas de ciências naturais, muito puristas com o rigor, usam termos sociológicos e filosóficos. O BSS não é «relativista pós-moderno». O BSS acredita piamente que existem realidades objectivas; e acredita que há formas seguras de conhecer, explicar o seu funcionamento. Pior: a sociologia do BSS *depende* da crença em fenómenos objectivos (por ex., de 'dominação', 'exploração', 'hegemonia', 'emancipação') e em estruturas causais objectivas (por ex., 'centros', 'periferias' e 'semi-periferias' mundiais); e *depende* da crença na possibilidade de uma ciência (a 'sociologia crítica') identificar e trazer a lume esses fenómenos e estruturas causais (para conhecer, mas também para 'emancipar').

Parece-me mal ofender assim o homem. Não que eu pessoalmente considere ofensivo chamar 'relativista' a alguém. (Como responde um - esse sim, verdadeiro - sociólogo da ciência, Bruno Latour, o que é o o relativismo? O contrário do absolutismo.) Mas o BSS acho que se ofenderá, porque sabe pefeitamente que num mundo de pontos de vista não há lugar para a sua sociologia libertadora; e vão lá dizer-lhe que a sua sociologia não é libertadora, vão... (cont...)

Publicado por: Gonçalo Praça em março 30, 2004 09:49 PM

(cont.) Outro tópico. Também acho piada ao desconforto que provoca aqui a colaboração de cientistas naturais com a suposta sociologia da ciência de BSS. Não arranjam outros argumentos, além da epidemia do «politicamente correcto» e do medo de contrariar BSS? O «politicamente correcto» está para este debate como as armas de destruição maciça para a paz mundial: são muito mais as vozes que as nozes; as denúncias são mil vezes mais fortes que o fenómeno que supostamente denunciam, e têm efeitos muito mais nefastos do que o insignificante fenómeno.
Um como as outras, só servem para marcar posições e alimentar conflitos.

Não se podia simplesmente começar por admitir uma ou duas coisas? Que se calhar há algum fundo de razoabilidade, de coerência, de inteligência, de vontade de conhecer --- já nem digo de verdade --- nas posições a que chamam «relativistas», «pós-modernos», «anti-ciência», etc.; e que se calhar há alguns cientistas que se interessam por estas posições apenas porque encontram aqui boas descrições e explicações de como funciona a ciência que conhecem, que praticam? Só para ser um bocadinho 'relativista': há pessoas que vêem umas coisas, outras outras; há umas que querem ver umas coias, outras outras.

Ao contrário do que muitas vezes se diz, a maioria dos cientistas sociais da ciência --- uff, tradução apressada de social students of science --- ou teve formação científica pelo menos ao nível de licenciatura; ou foi cientista num passado mais ou menos distante; ou trabalha em colaboração com cientistas.

Falo dos principais cromos do campo, os que mais facilmente serão apontados como grandes demónios pós-modernos relativistas anti-científicos: por exemplo, Donna Haraway, feminista indefinível disciplinarmente, é originalmente bióloga; David Bloor, fundador da vaga recente de sociologia da ciência, e um dos sociólogos mais 'relativistas' a sério, estudou matemática antes disto; Andrew Pickering, um dos sociólogos da ciência mais radicais do momento --- se chamam pós-moderno ao BSS, ui... --- foi físico, doutorado em Oxford e investigador, salvo erro, do King's College; Bruno Latour, outra figura radical, é filósofo e antropólogo de formação, mas trabalha numa das principais faculdades de engenharia francesas, a École de Mines de Paris; o seu pioneiro estudo etnográfico de um laboratório de neurobiologia em San Diego, foi feito com supervisão de um prémio nobel da medicina, responsável por esse laboratório; o seu colega e comparsa intelectual, Michel Callon, é engenheiro de formação. Por cá, por exemplo, a figura da sociologia da ciência mais próxima de BSS, João Arriscado Nunes, também não tem formação 'científica' de base; mas trabalha sobre bioncologia, em estreita comunicação e colaboração com o galardoado Sobrinho Simões.

Publicado por: Gonçalo Praça em março 30, 2004 09:55 PM

Não me compete comentar algumas partes do longo comentário do Gonçalo Praça. Vou limitar-me às questões que estão directamente relacionadas com os textos deste blogue.

Em primeiro lugar, não posso deixar de dizer que o primeiro parágrafo do primeiro comentário revela, na minha opinião, uma posição inaceitável. Será alguma forma de "relativismo pós-moderno contra o rigor da linguagem", Gonçalo? Não sei se reparaste que texto falava de língua portuguesa, e não de ciência, pelo menos directamente. Eram termos científicos, é verdade, e por essa razão, como já referi num comentário à dita entrada, consegui detectar os erros com alguma facilidade. Mas não deixa de ser um problema de língua portuguesa. Se pensas que o rigor não é um atributo necessário na comunicação, lamento, mas discordo profundamente. Até que ponto podemos descer? Qualquer pessoa entende o que uma criança de cinco anos diz, não é verdade? E com algum esforço também entendemos aquelas mensagens, que se designam por "SMS", escritas por adolescentes.
Será que encontramos o rigor na linguagem nos escritos de Bruno Latour: “Uma vez que a decisão de uma controvérsia é a causa da representação da natureza, e não a sua consequência, não pode recorrer-se ao resultado final – a natureza – para explicar porquê e como foi decidida essa controvérsia”(Bruno Latour, Science in Action – retirado de Imposturas Intelectuais, de Sokal e Bricmont). Peço perdão ao Gonçalo pela provocação, mas não é necessário ler Sokal para perceber que a frase de Latour deve muito pouco ao rigor.

O Gonçalo pergunta: “quantas pessoas, depois de ler a frase «BSS é um relativista pós-moderno», mais ou menos proferida por, entre outros, António M. Baptista e Nuno Crato, ficaram a pensar que o BSS defende a «doutrina, permanentemente tentadora, que afirma que (...) a própria verdade é relativa ao ponto de vista do sujeito.» (p. 385 do Dicionário de Filosofia, da Gradiva, para citar uma obra anti-relativista, traduzida por uma equipa anti-relativista e publicada por uma editora anti-relativista)?”
Não sei se BSS é, ou não, um relativista pós-moderno segundo o conceito que o Gonçalo transcreve. Se não é, alguém que conheça bem a sua obra que o diga. Porque eu, como já disse noutros lugares, não a conheço suficientemente bem. Tomei apenas conhecimento de algumas das suas ideias políticas e sociais e frequentemente discordo das mesmas. BSS representa uma esquerda apegada a doutrinas moribundas, uma esquerda que ainda defende a “ditadura do proletariado”, uma esquerda que apregoa os benefícios da “democracia directa”, essa aberração ideológica que minaria a democracia por dentro. BSS representa uma esquerda que não aceita que o tempo passa, que tudo muda, que a mudança é inerente à condição humana, individual e civilizacional. Não me revejo nessa esquerda. (Posso estar errado na interpretação que fiz de alguns textos, entrevistas e intervenções de BSS, reconheço isso). Mas isto não tem nada a ver com o facto de BSS ser ou não um relativista pós-moderno. O Gonçalo diz que não é. Acredito que não seja uma doutrina que BSS siga cegamente. Mas parece-me que algumas das suas ideias estão contaminadas pelo vírus do relativismo, “um dos maiores crimes dos intelectuais”, como o classificou Karl Popper (Em Busca de Um Mundo Melhor).

O que é uma sociologia libertadora, Gonçalo?

Não, não há nenhum “fundo de razoabilidade, de coerência, de inteligência, de vontade de conhecer --- já nem digo de verdade --- nas posições a que chamam «relativistas», «pós-modernos», «anti-ciência», etc.”, pelo menos no sentido canónico dos termos.
Muito trabalho têm pela frente os “relativistas” se ambicionam ser a voz da consciência da ciência. Porque a ciência, na sua génese, já incorporou essa voz. A ciência é a sua mais feroz crítica. A ciência é, ao mesmo tempo, inquisição e Fénix. E é esta autofagia que a faz evoluir na compreensão dos fenómenos que nos rodeiam. A sociologia deve olhar para dentro, encontrar mecanismos de auto-destruição e reparação, antes de se aventurar noutras empresas. (Não tenho nada contra os princípios da sociologia ou das outras ciências sociais. Autores formados nessas áreas são assíduos visitantes da minha mesa de cabeceira. Neste momento, descansa por lá o Emmanuel Todd com o seu A Diversidade do Mundo)

Um passado de cientista ou uma colaboração presente com cientistas não é um atestado de validade para as posições de ninguém. Nem em sociologia, nem em ciência. Um cientista está constantemente sujeito à avaliação das suas descobertas e das suas teorias. O passado não serve de escudo. Pelo menos na ciência. Porque eu também posso falar de nomes de não-cientistas que, ou tiveram estudos científicos na juventude – como Popper – ou trabalham numa equipa multi-disciplinar de cientistas – como Daniel Dennet –, e que são ferozes opositores do relativismo.
Na verdade, muitos cientistas, com actividade passada e presente, também não sabem o que é a ciência. Alguns agarram-se a teorias dúbias que não conseguem provar. Muitos não têm coragem de assumir a tarefa de revolucionar os seus campos de estudo. Outros conduzem as suas investigações no sentido dos subsídios mais apetecíveis e mais conservadores. Esses, não sabem que a ciência não se faz apenas de construção mas, principalmente, de destruição.

Publicado por: CMF em março 31, 2004 12:37 AM

A ciência é um juízo de valor?

Gonçalo Praça: eu não escrevi que BSS é um “Relativista pós moderno”, no sentido de ele pertencer a uma determinada seita, nem isso me interessa, tratando-se apenas de rótulos. O que importa é que BSS é um relativista porque toda a sua argumentação se baseia na relativização de todas as formas de conhecimento, embora o objectivo último dele seja, como ele próprio admite, desacreditar o conhecimento científico para depois impor o seu “conhecimento prudente”. Também relativiza a distinção entre “sujeito” e “objecto”, numa das mais hilariantes argumentações a que tenho acedido. Todas as citações que se seguem são do livro “A crítica da razão indolente” (ed. Afrontamento, 2000). Vejamos:

“Os pressupostos metafísicos, os sistemas de crenças, os juízos de valor, não estão antes nem depois da explicação científica da natureza ou da sociedade. São parte integrante dessa mesma explicação. A ciência moderna não é a única explicação possível da realidade. Nada há de científico na razão que hoje nos leva a privilegiar uma forma de conhecimento baseada na previsão e controlo dos fenómenos.” (p.79)

Note-se bem: ele desvaloriza a ciência, mas recorre à ciência (pela negação: “nada há de científico…” para o provar. Temos aqui uma falha lógica grave, já salientada por AMB: se a ciência não prova, como pode provar a firmação de BSS?

O delírio de BSS, dentro da mesma linha de “curar com o pelo do mesmo cão”, continua com a “prova” de que a ciência é perigosíssima. Desde logo porque:

“O rigor científico, porque fundado no rigor matemático, é um rigor que quantifica e que, ao quantificar, desqualifica, um rigor que, ao objectivar os fenómenos, os objectualiza e os degrada, que, ao caracterizar os fenómenos, os caricaturiza”. (p.69)

Além disso, a medição matemática já nem sequer é credível, porque:

“A ideia de que não conhecemos do real senão o que nele introduzimos, ou seja, que não conhecemos do real senão a nossa intervenção nele, está bem expresso no princípio da incerteza de Heisenberg: não se podem reduzir simultaneamente os erros de medição da velocidade e da posição das partículas.” (p.66)

Eu creio que estas citações são auto-explicativas do ridículo da argumentação de BSS. Mas, à cautela, chamo a atenção para o facto de o princípio da incerteza de Heisenberg não exprimir nada daquilo. A teoria quântica é a que mais rigorosamente tem sido comprovada em termos de experiências e medições laboratoriais. A própria formulação do tal princípio (ou melhor, teorema) é de grande rigor matemático:

“Teorema de Heisenberg - fórmula da mecânica quântica segundo a qual a variância (dispersão em torno da média) da posição de um electrão, ou de qualquer outra partícula quântica, é inversamente proporcional à variância da velocidade. Tem sido mal interpretada falando da incerteza do experimentador a respeito da posição exacta e da velocidade exacta da coisa medida – daí o nome popular de "princípio da incerteza". Esta interpretação é incorrecta porque pressupõe que os electrões ou os seus análogos têm sempre uma posição e uma velocidade exactas, como se fossem massas pontuais clássicas, com a diferença que não as podemos conhecer com precisão. Mas a teoria não faz essa suposição. O teorema trata de características da matéria e não de incapacidades de medição; trata-se de uma limitação que está implícita na Natureza, não tendo nada a ver com nenhum aparelho ou com técnicas experimentais."” (citação adaptada de Carlos Fiolhais).

Esclarecido isto, caiem por terra os delírios de BSS, tais como a afirmação de que
“só podemos aspirar a resultados aproximados e por isso as leis da física são tão-só probabilísticas. (p.66) Eu acho, sim, que BSS só pode aspirar a resultados aproximados, mas nem sequer muito.

Na mesma linha, BSS afirma que “As leis têm assim um carácter probabilístico aproximativo e provisório, bem expresso no princípio da falsificabilidade de Popper” (p.68). Ora esse princípio, como é bem conhecido, não diz nada disso (mas será ainda preciso explicar?)

Outra desonestidade intelectual de BSS revela-se quando recorre ao “teorema de Brillouin que demonstra que a informação não é gratuita” (p.69) para concluir que “a própria precisão quantitativa do conhecimento é estruturalmente limitada” (p. 70). Este “princípio” de Brillouin é sobre uma tal negentropia (entropia negativa), conceito com que se pretende explicitar as situações (principalmente em organismos complexos ) em que, em certas condições, o nível de organização aumenta – mas sem que tal ponha em causa a universalidade da 2ª lei da termodinâmica. Em todo o caso, daqui não se pode concluir que “a experiência rigorosa é irrealizável” (p.70), como pretende BSS.

Vejamos agora outro importante relativismo: sujeito e objecto como sendo a mesma coisa.

BSS propõe-se “reexaminar a distinção entre sujeito e objecto” (p.78) por ser ela uma das “mais genuínas características” da ciência moderna (p.77). Para BSS, ao distinguir entre “sujeito e objecto”, a ciência moderna “aprofunda a distinção entre o humano e o não humano”. Eu que pensava que isto era um conhecimento interessante - pois não gostaria de ser confundido com uma vaca ou uma pedra no caminho - sou logo esclarecido por BSS de que esta “desumanização do objecto”, corresponde ao “momento da ignorância, ou colonialismo” (p78/79), daqui, e parafraseando Clausewitz, BSS afirma que “hoje, o objecto é a continuação do sujeito por outros meios”. Por isso, “todo o conhecimento emancipatório é autoconhecimento. Ele não descobre, cria”.(p.79)

Este “conhecimento emancipatório” , que “não descobre”, mas “cria” é, nem mais nem menos, o que BSS propõe como alternativa à “ciência moderna”. Mas sobre isso farei um post à parte.

Publicado por: João Aldeia em março 31, 2004 01:07 PM

Só duas coisas (que não tenho net à vontade):
A frase do Latour que citaste é completamente rigorosa, e muito mais clara do que dás a entender -- se leres o livro, ou pelo menos o capítulo, se estudares o tipo, em vez de citar gajos que *querem* dizer uma coisa, que têm uma agenda muito própria. De qualquer modo, admito que tenha que se estudar um bocado para a perceber, mas não faz muito mal, nem tem nada de excepcional. Duvido que a maior parte dos, por exemplo, biólogos, consiga ler um paper sobre teoria das cordas na Nature e perceber o que quer seja. Seria muito fácil a um biólogo de má fé fazer um pastiche qualquer a demonstrar o «obscurantismo«, o «absurdo» da coisa.

E que não se pense que estou aqui a defender a concepção de esquerda do BSS; nem que acredite que a sociologia -- dele, ou de quem seja -- é «libertadora»...

Publicado por: Gonçalo em março 31, 2004 01:10 PM

Uma retórica para os oprimidos, marginalizados ou excluídos

BSS entende que tem de partir do paradigma moderno para, demolindo-o, saltar para o novo “paradigma científico emergente”. Mas deve ter cuidado, aconselha-se ele próprio, para evitar “cair nas soluções fáceis de um pessimismo reaccionário ou de um voluntarismo inconsequente”. (p71). Propõe-se desbravar este terreno partindo das dimensões da modernidade que foram apenas "incompletamente colonizadas" pela ciência. Apoia-se então no “princípio da comunidade” e da “racionalidade estético-expressiva” (suponho que se refere à Arte). No princípio da comunidade salienta duas das respectivas dimensões: “participação e solidariedade” (“elementos que só muito parcialmente foram colonizados pela ciência moderna” (p71)

No caso da “racionalidade estético-expressiva”, parece-lhe um apoio amigável por ser “por natureza, tão permeável e inacabada como a própria obra de arte e, por isso, não pode ser encerrada na prisão flexível do automatismo técnico-científico” (p.72) – mais um eufemismom para a “perigosa” ciência.

Tendo descoberto que “toda a natureza é cultura” (p. 80), BSS vai “mostrando” como a ciência moderna é “capitalista” (p.81) e “sexista” (p.83), para concluir que “todas as ciências são ciências sociais” (p.84). Identificado o cadáver, BSS propõe-se então criar uma “novíssima retórica” (p.97), através da qual se possa “relativizar as pretensões cognitivas da racionalidade cognitivo-instrumental” (leia-se: da racionalidade científica) (p.97). Se isto não é relativismo, o que será?

Pois bem, esta novíssima retórica “deve privilegiar o convencimento em detrimento da persuasão, deve acentuar as boas razões em detrimento da produção de resultados” (p.98). Note-se: não interessam os resultados (um “colonialismo” da ciência, com certeza!) o que interessam são as “boas razões”. As descobertas do novo paradigma científico boaventuriano serão as que trazem boas notícias e jamais as que se comprovam com medições e resultados. Por isso ele afirma que não quer descobrir, mas criar! (p.79)

Donde deverá surgir este conhecimento? De toda a parte, uma vez que já tudo se relativizou? Não! Aqui BSS deixa escapar a sua estratégia segregacionista, tal gato escondido com rabo de fora: “o conhecimento-emancipação é um conhecimento local criado e disseminado através do discurso argumentativo” (89). Local? Por oposição a global? Tentemos decifrar.

Uma vez que todas as formas de conhecimento foram relativizadas, esperar-se-ia um grande papel do senso comum nesta novíssima retórica. Mas desenganemo-nos: o que interessa a BSS é apenas “o senso comum emancipatório”, que é “um senso comum discriminatório (ou desigualmente comum, se preferirmos) construído para ser apropriado privilegiadamente pelos grupos sociais oprimidos, marginalizados ou excluídos”.

Estão a ver o filme? O conhecimento da velha ciência é para deitar fora, para ser substituído por um novíssimo conhecimento, “emancipatório”, que deve ser “apropriado privilegiadamente pelos grupos sociais oprimidos, marginalizados ou excluídos”.

Nas escutais aqui o eco ideológico dos “amanhãs que cantam”? Não vislumbrais aqui um novo “muro” a ser erguido? É em troca disto que vamos deitar o conhecimento científico para o caixote do lixo?

Gonçalo Praça: aqui chegados devo comentar uma das suas mágoas (você diz que lhe acha piada…) – que é a do desconforto que provoca “a colaboração de cientistas naturais com a suposta sociologia da ciência”. Não acha estranho que cientistas participem em livros e conferências, onde se pretende credibilizar afirmações como aquelas que eu reproduzi acima, demolidoras da ciência, sem tomarem abertamente posição, concordando ou discordando?

Sabe, eu debato ideias, não pessoas. Uma ideia errada de BSS passaria a estar certa se tivesse 19 cientistas no lançamento do respectivo livro? Acho que não. E a lista de sumidades que apresenta no fim do seu post, vale por quantas ideias? E prova o quê? Que como estudaram ciência, têm razão, não importa o que digam? Ou,mais concretamente: consegue defender algumas das ideias de BSS que eu procurei identificar nestes meus arrazoados?

Publicado por: João Aldeia em março 31, 2004 02:04 PM

Gonçalo, também não tenho muito tempo, logo voltarei. Mas penso que não percebeste onde eu queria chegar com a frase do Latour. Ele começa por falar em "representação da natureza" para depois reduzir o conceito para "natureza". É esse o erro mais evidente da frase e não é necessário ler mais nada para o identificar. É o rigor, Gonçalo, é o rigor...

Publicado por: CMF em março 31, 2004 04:18 PM

Que confusão que para aqui vai. O BSS, defensor da ditadura do proletariado e anti-ciência, o Jorge Buescu e o Nuno Crato paladinos do combate à crendice e ao relativismo... Confesso a minha ignorância em filosofia das ciências (e da filosofia) em geral, mas este debate parece-me mais uma guerra de comadres que um debate. Para quê invocar as posições políticas do BSS? Será que isso é relevante? O que é que escrever (excelentes) livros de divulgação científica tem a ver com esta discussão? Há aqui uma questão, meramente afectiva, mas que é importante: quem se interroga sobre estas questões da validade do conhecimento científico não faz astrologia nem vai à bruxa, e aí vocês ('duros') estão a confundir o inimigo.

Publicado por: Pedro em abril 1, 2004 12:50 AM

Será que é relevante evocar as posições políticas de BSS? Não sei. Mas sei que, frequentemente, BSS evoca as posições políticas dos cientistas. Aliás, BSS defende que a ciência anda a reboque da ideologia. Será então incorrecto colocar a hipótese de que as suas ideias estão contaminadas pela sua ideologia?
Existe influência da ideologia na ciência? Claro que sim. Como existe influência de inúmeros factores. Mas quando a ideologia começa a ter um peso excessivo não é difícil desmantelar qualquer teoria por ela sustentada. (a não ser que o cientista tenha abandonado definitivamente o rigor científico...mas nesse caso o melhor é ignorar). Veja-se a forma como o filósofo Daniel Dennet refutou muitas ideias mais tardias de Stephen Jay Gould. O famoso cientista e divulgador, numa segunda fase da sua carreira, tornou evidente o seu posicionamento político e o peso que o mesmo passara a ter nas suas ideias científicas. Forçando as suas teorias a seguir o sentido da sua ideologia, atacando selectivamente (ideologicamente) os seus opositores, deu o flanco às mais variadas críticas e refutações da sua obra. Por pouco não "apagou" toda uma vida de investigação séria e divulgação honesta.
Mas uma coisa não se pode negar. A obra mais recente de S.J.Gould, embora possa estar ideologicamente marcada, embora não tenha passado alguns testes à sua validade, era suficientemente rigorosa e tinha argumentos suficientemente claros para poder ser criticada e estudada (e continua a ser). Não obedece ao critério de falsificabilidade de Popper e muito menos aos “critérios” dos positivistas (mas que teorias da evolução é que obedecem?), mas o método que as mesmas revelam é claramente científico. Porque um trabalho pouco rigoroso, vago, subjectivo e ambíguo é a melhor forma de fugir às críticas. Infelizmente, é isso que acontece em certos textos de ciências sociais. Felizmente, nem todos enfermam deste mal. O pobre Emmanuel Todd, que já aqui referi que estou a ler, foi acusado de positivismo e determinismo, pelos seus pares, devido à sua obsessão por factos que sustentassem as suas teorias.

Publicado por: CMF em abril 1, 2004 01:50 AM

Pedro: agradeço o seu comentário. Quanto à "guerra das comadres", gostaria de lhe solicitar, se não for pedir muito, que explique o que seria para si um "debate". Acredite que estamos sempre dispostos a aprender.

Quanto ao BSS: eu não fui "invocar as posições políticas do BSS" mas sim a concepção de ciência que ele apresenta num livro "científico" ('A crítica da razão indolente'). Daí as minhas citações. Ali se anuncia a criação da "nova" ciência, pós-moderna, a tal do "conhecimento emancipação" que deve ser "apropriado privilegiadamente pelos grupos sociais oprimidos, marginalizados ou excluídos". Tudo em nome das ciências sociais.

Não sei se o BSS vai à bruxa. Mas sei que nos seus "científicos" livros ele defende que esses conhecimentos (e cita, entre outros, a astrologia) valem tanto como os da ciência "dura" (que ele designa como "moderna", querendo com isso dizer que é velha e ultrapassada, pela... "pós-moderna").

Como deve saber, as ciências caracterizam-se pelo uso do método científico (e pela dúvida metódica, etc.). No entanto, actualmente, a maioria dos nossos licenciados saiem da universidade sem nunca terem sequer ouvido falar desse tal método, quanto mais da filosofia da ciência - o que deveria ser obrigatório estudar pois estão a formar-se, ao mais alto nível, em ramos científicos. Será isto normal?

Por último: ninguém é ignorante em filosofia (trata-se de uma impossibilidade). Experimente ler o Fernando Savater e verá.

Publicado por: João Aldeia em abril 1, 2004 03:43 PM

Essa do 'hoje em dia maioria dos nossos licenciados saem das faculdades sem nunca terem ouvido falar dos tais métodos' aplica-se aos licenciados desde quando? Com pressupostos desses não se chega a lado nenhum. A mim parece-me evidente o enorme salto qualitativo e quantitativo das ciências em Portugal (na biologia e nas CS, pelo menos, que são as de que estou mais a par) nos últimos 20 anos, portanto, lamentações dessas parecem-me despropositadas - eu sou suspeito, porque entrei na fac em 79, mas... o que havia antes era lamentavelmente pobre, salvo raras excepções.
Quanto ao resto, a minha observação era só para chamar a atenção para o facto de estas discussões terem a tendência para resvalar para uma guerrinha entre os das ciências 'duras' e os outros. Tenho dúvidas se, de facto, as ciências sociais devem ser colocadas no mesmo plano da física ou da biologia. No entanto, produzem conhecimento, isso parece-me inegável. A menos formal das ciências sociais, que é a história, não produz conhecimentos menos válidos que a economia, por exemplo. Precisamente, um dos problemas das ciências sociais a certa altura foi quererem 'colar-se' às ciências duras, tentando adoptar esquemas formais que de rigorosos não têm nada, e valor heurístico muito menos.
Mas, voltando atrás, quando o Gonçalo referiu que algumas pessoas no campo 'relativista' têm formação científica, chama também a atenção para o facto de não estar aqui em causa uma oposição ciência/não ciência. Há pessoas no campo das ciências sociais que se interessam pelo modo como a ciência é produzida (é uma actividade humana, inserida em contextos sócio-económicos-culturais, como muitas outras), esse é um campo de estudo recente e interessante, e a própria ciência só tem a ganhar com esse olhar exterior. E essas pessoas não são animadas por nenhum espírito anticientífico, ou nem todas, pelo menos. Apetece-me fazer uma sugestão: que tal esquecer a questão Sokal/BSS/AMB e aproveitar o facto de este espaço ser frequentado por pessoas das ciências duras e moles, ou o que lhe queiram chamar, e aproveitar para trocarmos as nossas próprias ideias? Olhem que é uma oportunidade pouco frequente.

Publicado por: Pedro em abril 1, 2004 05:25 PM

Pedro, muito bem.

Publicado por: Gonçalo em abril 1, 2004 09:35 PM

Pedro e Gonçalo: o debate em causa é um dos acontecimentos mais interessantes na esfera das ideias, hoje, em Portugal. E propõem então esquecê-lo? Substitui-lo pela troca das "nossas próprias ideias"? Muito bem. Aqui estamos, aguardando que tomem a iniciativa, até por ser "uma oportunidade pouco frequente" (para vós próprios, presumo...)

Mas repare, Pedro: apesar dos meus longos textos, apenas apresentei e contestei ideias, e não pessoas. Ao contrário de si, que fez amplas observações sobre pessoas (do tipo: "essas pessoas não são animadas por nenhum espírito anti-científico, ou nem todas", ou "quem se interroga sobre estas questões da validade do conhecimento científico não faz astrologia nem vai à bruxa") sem apoio de ideias que alimentem um verdadeiro debate. Não mais do que generalidades inconsequentes.

Eu penso que o Pedro tem uma ideia errada do que é um debate de ideias. Se não fosse assim não teria sido ofensivo com essa observação da "guerra de comadres" (provavelmente quereria dizer "zanga de comadres", mas até para as metáforas é preciso ter jeito...) Eu não gostaria de parecer paternalista, mas atrevo-me a aconselhar a leitura dos textos polemizadores do Eça de Queiróz (talvez outra "comadre"...)

Mas posso estar enganado, por isso aguardo com expectativa a vossa participação na tal troca das "nossas próprias ideias".

Publicado por: João Aldeia em abril 2, 2004 09:57 AM

Bom, longe de mim querer ser ofensivo. Mas neste tom, de facto, não quero discutir coisa nenhuma.

Publicado por: Pedro em abril 2, 2004 11:20 AM

E congratulo-me, João Aldeia, por saber que esta não é uma oportunidade pouco frequente. Se há uma coisa para a qual não tenho paciência é a arrogância.

Publicado por: Pedro em abril 2, 2004 11:23 AM

Pedro: faz bem em aborrecer a arrogância. Mas veja bem: eu apresento uma série de ideias, baseadas em citações e explicações, e coloco algumas perguntas (coisas típicas de um debate). Você não responde a nada (fez algumas observações interessantes, mas que não respondiam às questões que levantei), insinua que é uma "guerra de comadres", e finalmente propõe que se esqueça a questão e se discuta outra coisa. Afinal, de que lado está a arrogância?

Não confunda forma com conteúdo. O conteúdo são as ideias. Quanto à forma dos debates, ela pode ser mais cordata, apaziguadora, ou mais acutilante, mais viva. Eu prefiro este último estilo, e foi isso que eu quiz significar quando citei o Eça de Queiroz, que foi um polemista terrível na forma como esgrimia com os seus contendores.

Como se pode ser cordato, do género: "olhe lá, não leve a mal, mas mas o amigo deve ter-se enganado", com um sociólogo (BSS) que afirma, inequivocamente, que a ciência é apenas um "juízo de valor"? Ou: que ela vale tanto como a astrologia? Devemos encolher os ombros quando isto é ensinado aos nossos estudantes? A maioria dos estudantes não aprende a metodologia básica da ciência, mas não faz mal porque "parece evidente o enorme salto qualitativo e quantitativo das ciências em Portugal"? Quer dizer que os diagnósticos (baseados em dados!) sobre o lamentável estado do nosso ensino científico são para ignorar, porque parece (parece ?) que está melhor do que antes?

No seu texto de 1 de Abril, o parágrafo do meio (o que se inicia com "Quanto ao resto,") parece-me razoável. Mas acha que eu resvalei para "uma guerrinha entre os das ciências 'duras' e os outros"? Falei alguma vez disso? Sou culpado pelo que outros terão eventualmente escrito? Ou quer acusar-me, como o lobo da fábula de La Fontaine: "se não foste tu, foi o teu pai..."?

Regra: ler bem o que foi escrito, apreender o raciocínio subjacente, ponderar os factos, formular uma opinião e então, sim: rebater convictamente, argumento a argumento, se possível com algum humor à mistura. Quando falta o sentido de humor, estraga-se a conversa.

Publicado por: João Aldeia em abril 2, 2004 03:22 PM

João Aldeia: Primeiro,não vejo por que a expressão "guerra de comadres" seja ofensiva. O que eu queria dizer era simplesmente que este debate (esta polémica, em geral, e não esta, em particular, aqui, neste blog, muito menos o que o João Aldeia disse) tende a degenerar em conversa de surdos entre as "capelas" (se calhar esta expressão era mais apropriada)das ciências exactas e das ciências sociais. Isso mesmo foi já aqui dito, por várias pessoas (nos comentários a um dos primeiros posts -"Boaventura S. Santos ou A Fragilidade no Pensamento").
Segundo: eu não disse que o dito debate não era interessante. Só me atrevi a sugerir que o debatêssemos nós próprios, ou seja, sem ser através de comentários ao que esses figurões escreveram, por me parecer pouco produtivo.
Terceiro: correndo o risco de me repetir, se o João acha que o assunto é amplamente debatido entre pessoas das CS e das outras, óptimo. Eu e o Gonçalo, que mais (ele) ou menos (eu) somos das CS, não demos por nada, paciência.
Quarto: eu limitei-me a fazer algumas observações e não a responder a qualquer pergunta, porque não me perguntaram nada. Ah sim, o João perguntou-me 'o que é um debate?'. Não me apeteceu responder, confesso. Em contrapartida, eu fiz-lhe uma, e o João não respondeu (a do "hoje em dia"...), talvez porque não lhe apetecesse também. Ficamos quites.

Publicado por: Pedro em abril 2, 2004 09:48 PM

Pedro: é certo que me perguntou: "Essa do 'hoje em dia maioria dos nossos licenciados saem das faculdades sem nunca terem ouvido falar dos tais métodos' aplica-se aos licenciados desde quando?".

Mas não esperou pela resposta, escreveu logo: "Com pressupostos desses não se chega a lado nenhum."

Mas posso responder: desde que a geração que se formou por alturas da Revolução de Abril e anos subsequentes chegou ao ensino, como professores e funcionários do Ministério da Educação, e aplicou o modelo de ensino que se pode designar como de "avaliação contínua". Portando, desde há 25 anos para cá.

E agora, sim, podemos colocar a sua resposta: "Com pressupostos desses não se chega a lado nenhum."

Experimente pedir a qualquer licenciado deste período (ou actual estudante de licenciatura) que caracterize o método científico... Para já não falar das leis da termodinâmica (só o nome deve assustar). Talvez recordem, vagamente, que os corpos se atraem (os celestes...) E da Relatividade (a do Einstein) conseguem alguns "deduzir" que "tudo é relativo"... Um número razoável também "sabe" que houve um português que "provou" que o Einstein "estava errado". Um cacharolete de asneiras que deve chegar para explicar grande parte do nosso atraso científico tecnológico.

Publicado por: João Aldeia em abril 3, 2004 05:05 PM

OK, estou esclarecido. O João está a dizer que qualquer pessoa licenciada depois de 1980, mais ou menos, não sabe caracterizar o método científico, o que inclui várias pessoas que têm contribuído para este blog, incluindo os seus 'proprietários', e eu próprio, e portanto não sei porque é que estamos aqui a falar, já que o João não nos reconhece à partida competência para o assunto. Agora, parece-me inquestionável que a actual produção científica portuguesa é muito superior, em quantidade e qualidade, à que era em 1980. Na minha área, basta comparar as teses de mestrado e doutoramento dos meus contemporâneos como as dos nossos professores (que aliás, nem sequer as tinham feito, na maior parte) para verificar isso. Noutra área (a biomedicina), há no Porto uma actividade de investigação muito interessante, na qual teve papel importante o famigerado relativista Quintanilha. No Técnico, julgo que se passa o mesmo em algumas áreas, como a robótica. Mas quem sou eu, pobre licenciado pós-1980, para avaliar seja o que for.

Publicado por: Pedro em abril 5, 2004 12:11 PM

Pedro: não disse nada disso. O facto de dialogar com o Pedro pressupõe, ao invés, que lhe reconheço conhecimentos para este debate. Escrevi sobre o ensino e não sobre a investigação; não chamei relativista ao Quintanilha, etc.

Atribuir ao outro afirmações que ele não fez é um velho truque dos debates mesquinhos e infrutíferos.

Por isso declaro por encerrada a minha participação, até porque nos estamos a repetir. Mas não pense que saio aborrecido, pelo contrário. Foi bué interessante. E agradeço ao Pedro, uma vez mais, a atenção.

Publicado por: João Aldeia em abril 5, 2004 01:57 PM

Amigos, nao se zanguem...

Publicado por: CMF em abril 5, 2004 05:11 PM

explica-me o sentido desta afirmacao.

na realidade,raras saoas situacoes
em que e possivel realizar algo de
semelhantes aos teste laboratorias
controlados da fisica ou da quimuca,
pois seria imoral usar pessoas ou
sociedades como cobais da ciencia.

Publicado por: ismaila cande em janeiro 12, 2005 11:12 AM