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março 24, 2004

Madrid e Barcelona — Perspectivas

Fui ver a exposição de Català-Roca Barcelona / Madrid anos cinquenta, no dia das eleições espanholas. O primeiro pasmo deveu-se ao facto de ter podido entrar, na Galeria da Mitra, com a minha acompanhante canina! (serão os ventos espanhóis a começar a soprar?) O segundo, foi devido às imagens daquele autor que, lamentavelmente, eu desconhecia. O Instituto Cervantes continua a facultar-nos a cultura espanhola de forma exemplar.


Català-Roca, Azafata saliendo del metro en La Gran Vía (Madrid)

As fotografias dos anos cinquenta daquelas duas magnas capitais espanholas comoveu-me. São cidades “imperiais”! É assim, deste modo monumental e garboso que ambas são exibidas. Naquele tempo em que parecia haver mais tempo e mais espaço, apesar de isso ser enganador. Falo primeiro de Madrid, através das palavras de Andrés Tapiello: Madrid, como nenhuma outra cidade de Espanha, vivia uma aguda esquizofrenia: a de ser a cidade de um milhão de cadáveres, a que aludiu Damaso Alonso, e essa outra em que os vencedores (...) com paragens nos cabarés e salas de baile da Gran Vía, podiam gozar a Vitória à vontade. Uma Madrid em que mais de metade da população tinha estado a favor da República, e uma outra (...) que recordava aos primeiros, da maneira mais cruel e criminosa, a sua condição de “renegados, traidores e mal-nascidos”. Uma Madrid que começava a aquecer (com carvão racionado) e uma outra cujo coração gelara para sempre (...).

Depois vem Barcelona, exposta mais informalmente, talvez por Català-Roca ter vivido ali, desde os nove anos. A cidade é recontada através de pormenores, frutos dos disparos inspirados do fotógrafo. Sobre esta cidade prefiro, também, falar transversalmente pelas palavras alheias e sentidas de Enrique Vila-Matas: Barcelona, nessa época, era pior do que Luvina, essa aldeia da qual nos diz Juan Rulfo que, por onde quer que se olhe para ela, é um lugar triste: ‘Você que vai para lá vai reparar. Eu diria que é o lugar onde se aninha a tristeza. (...) Barcelona era pior do que Luvina. (...) Era uma ‘Barcelona triste e suja’, ‘rectilínea e sem praças, talvez interessante’. Mas uma Barcelona que eu amo, porque foi a cidade da minha infância feliz, embora da minha infância — como daquela cidade — quase não reste nada. E uma Barcelona, além disso, com bares, os que freqüentava Gil de Biedma e que também eu próprio tenho como se fossem lembranças pessoais minhas, pois também de lembranças dos outros estão feitas as lembranças inventadas: o Grill-Room da calle Escudellers; (...) o Boliche, que depois se havia de chamar Madrigal; (...) o restaurante do Panam’s, onde davam lentilhas (...) e o Pastís, com a sua imortal música de Edith Piaf.

Maria João Reis Martins

Publicado por João às março 24, 2004 12:10 AM

Comentários

Quero ir ver essa exposição...

Publicado por: Ana [Lua] em março 25, 2004 01:20 PM

Vai, mas leva um canídeo contigo....

Publicado por: MJM em março 25, 2004 06:41 PM

Achas que também entram gatos...?

Publicado por: Ana [Lua] em março 30, 2004 08:45 PM