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março 23, 2004
A Marisqueira
As cervejarias de Lisboa acompanham-me desde a meninice. Ainda mal sabia ler quando comecei a acompanhar os meus pais nos croquetes, pregos, ovos cozidos e no ponto fulcral deste texto: os mariscos.
É o carácter marisqueiro que eleva uma cervejaria lisboeta a um estatuto respeitável. Como espaço de degustação do néctar de cevada, estas não aguentam a comparação com as suas irmãs mais aristocratas da Europa central. Nesses espaços seculares, beber cerveja é um acto de devoção, uma experiência comunitária onde se partilham mesas e conversas com estranhos, e onde a madeira não abdicou do seu reinado em nome do alumínio. Recordo, com mais saudade, o Templarius de Praga, as caves fumarentas de Buda (em Budapeste), os fígados de galinha com bacon das cervejarias de Belgrado, os enchidos de uma cervejaria no bairro velho de Zagreb e a pivnica Zlatorog em Ptuj, pequena cidade da Eslovénia, onde se podiam comer, para acompanhar a excelente cerveja eslovena, uns canónicos cevapcici, pequenos rolos grelhados de carne picada condimentada. Em Lisboa, só conheço um espaço que pode rivalizar com muitas cervejarias europeias, embora o seu horário seja ridículo num país onde tanta casa fecha tão tarde. Estou a falar do Bar Inglês, no Cais do Sodré. Mas deixemos para outro texto estas casas de enlevação. Mais do que de cervejarias, pretendo falar de marisqueiras.
Alcântara, portas de Santo Antão e Almirante Reis são locais de peregrinação habitual para os amantes de marisco lisboetas. Em qualquer um destes pólos marisqueiros podemos encontrar casas que não deixarão ficar mal qualquer ansiedade pelos bichos do mar. Têm as suas falhas, mas em três ou quatro podemos esperar um bom retorno do investimento. Mas, infelizmente, é também frequente encontrarmos os principais defeitos das marisqueiras lisboetas: deficiente condição de alguns mariscos de ria, que exigem maior frescura para serem desfrutados em toda a sua plenitude, irritante tendência para servir marisco frio (uma mania lisboeta) e falta de qualidade de alguns produtos mais especiais (designa-se por camarão do Porto qualquer bicho com um centímetro e cor-de-rosa deslavado). A forma como os percebes são tratados devia ser punida com contra-ordenação; são muito raras as casas que não os servem frios, e muitas vezes colocam-nos na mesa com várias horas, ou mesmo dias, de cozedura. Honre-se aqui a instituição Gambrinus, nas portas de Santo Antão, que nos serve, mesmo ao balcão, uns fresquíssimos percebes, acabados de cozer, e levados para a mesa envoltos num vapor de maresia. Não estiveram, na minha única visita ao Gambrinus, ao nível dos galegos, nem de uns saudosos percebes que provei na Arrifana há uns anos atrás, mas foram, mesmo assim, os melhores que já tive o prazer de comer em Lisboa.
Entretanto, desde há algum tempo, comecei a frequentar uma antiga cervejaria lisboeta, de seu nome Marisqueira do Lis. Se por outra coisa não se destacasse, ficaria para sempre ligada à minha primeira experiência feliz com o apreciado camarão do Porto; finalmente, os pequenos crustáceos justificaram o preço elevado que por eles se pagam. Mas são mais numerosas as razões que me levam esquecer todas as outras casas e a sentar-me à mesa desta cervejaria sempre que, entre confrades da mesa, se escolhe o marisco para ser sacrificado ao apetite. A frescura nunca se deixou corromper, a execução é imune a críticas severas, as santolas e os lagostins estão vivos e são cozidos na hora e as gambas ostentam sempre uma cozedura correcta, embora não escondam a sua passagem pelo congelador (mas onde é que encontramos gamba fresca em Lisboa sem hipotecar o orçamento semanal?).
No último sábado foi dado o golpe de misericórdia em alguma dúvida que ainda pudesse restar a respeito da qualidade da marisqueira. Foram pedidos, com alguma desconfiança, búzios de ria, animal ao qual o palato não tolera o mínimo sinal de degradação, e que pode fazer sérios estragos no organismo humano se não estiver nas condições adequadas. Houve agradável surpresa à mesa porque, não só não estavam maus, como é intoleravelmente frequente em Lisboa, como estavam escandalosamente perfeitos.
Só posso fazer duas críticas negativas ao trabalho da Marisqueira do Lis. O percebe, embora seja fresco e de qualidade apreciável, já está cozido há algumas horas quando nos chega à mesa...frio. Mas este é um fardo que nós, lisboetas que adoram marisco, já nos habituámos a carregar, como nos habituámos a desesperar por navalheiras e burriés, outrora tão comuns nas cervejarias de Lisboa, mas que agora se encontram com uma raridade inexplicável. Em nenhuma das ocasiões que a visitámos foi a Marisqueira do Lis paliativo para a ânsia por estas miniaturas dos mares.
Tirando estes apontamentos menos bons, a Marisqueira do Lis, não sendo, com toda a certeza, a melhor marisqueira de Lisboa, é uma das melhores experiências que esta cidade tem para oferecer aos comedores de marisco compulsivos.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às março 23, 2004 03:20 AM
Comentários
Há mais espaços em Lisboa onde se podem degustar cervejas, além do British.
Publicado por: Ana [Lua] em março 23, 2004 04:28 PM
Sim, eu sei. Mas serão tão agradáveis e personalizados como o British?
Publicado por: CMF em março 23, 2004 06:45 PM
Há que descobrir...
O British tem pormenores únicos, como aquele relógio ao contrário e a simpatia dos empregados, mas conheço um espaço na Madragoa também muito agradável. Só não sei como estará agora...
Publicado por: Ana [Lua] em março 30, 2004 08:43 PM
Na Madragoa? É o restaurante belga? Gostava de lá ir...
Publicado por: CMF em março 30, 2004 08:51 PM
Lol...apanhei por acaso este site numa destas noites de insónia que venho do trabalho dessa tal marsiqueira do Lis...eu sou um dos actuais sócios gerente deste ícone do marisco em Lisboa.
Publicado por: Rafael em janeiro 18, 2005 04:28 AM