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fevereiro 15, 2004
Pretextos, Causas e Mentiras IV
Quando as míticas armas de Saddam Hussein voltaram à ribalta da discussão política e pública, e desde que cresceu a suspeita de empolamento da questão para justificar uma guerra, começaram a surgir, na comunicação social e na blogosfera, inúmeros textos que pretendem racionalizar a questão da guerra do Iraque, procurando escudar posições por trás de argumentos irrefutáveis. Perante tais atributos dos argumentos é difícil defender uma ideia oposta. É muito difícil discordar de posições como a que João Miranda, por exemplo, defende e defendeu. Aqueles para quem não existem formas de totalitarismo mais ou menos toleráveis, e não existe relativismo cultural que justifique a ausência de democracia e de liberdade, só podem rejubilar com a queda de mais uma ditadura.
Mas poderá um assunto tão complexo como a guerra ser racionalizado de uma forma fria e calculista? Talvez. Mas, correndo o risco de ser acusado de pacifismo inconsequente e autista, não consigo enumerar listas de razões para justificar uma guerra, nem pesar argumentos para justificar bombardeamentos ou manter posições firmes em questões que envolvem a morte. Uma guerra é um fenómeno que torna todas as justificações num acto fútil. Uma guerra acontece, e as razões para que aconteça podem ser esmiuçadas e dissecadas mas não me parece viável justificá-la através de argumentação comparativa. Os povos que se envolvem em conflitos violentos devem tirar as devidas ilações dos seus actos e, se for esse o caso, os governos que os representam devem ser punidos pelos crimes de guerra.
Nunca sofri directa e conscientemente os efeitos de uma guerra. Mas, por três vezes, fui colocado perante as cicatrizes causadas por conflitos que todos conhecemos.
Na Coreia do Sul conheci o absurdo da divisão de um povo. Na fronteira entre as duas Coreias, arame farpado impedia o acesso às poucas centenas de metros da zona desmilitarizada. Do outro lado, ouvia-se o som roufenho de uma voz gravada e amplificada que, segundo o nosso guia, propagandeava as virtudes do regime comunista. No percurso para o local já havíamos passado por um rio onde, na margem oposta àquela em que nos encontrávamos, se podia ver uma pequena cidade, sem movimento, sem carros, sem sinais de vida. “Propaganda”, dizia o guia. Propaganda de quê? Só num país totalmente fechado ao exterior, obcecado por uma injustificável posição política, dirigido por homens toldados pela ilusão do poder, se poderia pensar que tais acções de propaganda pudessem ter consequências positivas para as suas ambições.
Mas era na fronteira que o absurdo da guerra e da divisão mais se fazia sentir. Estive no santuário improvisado que recebera, pouco tempo antes, famílias separadas pela relíquia da guerra fria que se estendia perante os meus olhos incrédulos. Depois de muitos abraços e lágrimas, os dois países voltaram a fechar as suas portas com promessas de entendimento e uma ténue sugestão de reunificação. Recordo-me de tomar a decisão de visitar a região baseado na convicção de que esta poderia ser a última oportunidade para ver, ao vivo, os restos de uma época que terminou com a queda do muro de Berlim, apesar da apreensão que sentia por uma natural aversão à banalização turística de fenómenos sérios e trágicos. Pouco tempo depois de regressar da Coreia do Sul as posições voltaram a extremar-se e a esperança que transparecia da voz do nosso guia, quando se referia à possibilidade de uma Coreia unida renascer daquela aberração histórica, deve ter esmorecido com os discursos guerreiros dos déspotas do norte e com diplomacia pouco delicada da administração norte-americana.
A segunda vez que estive em contacto com as consequências físicas da guerra foi em Belgrado. A cidade ainda não recuperara dos últimos bombardeamentos da NATO, ataques cujo propósito e justificação ainda não foram totalmente esclarecidos, embora o pretexto do Kosovo tenha sido invocado. Recordo-me de uma conversa com um arquitecto sérvio, imigrado em Portugal, num longa noite lisboeta, durante os bombardeamentos. Dizia-me ele, de voz embargada e olhos selvagens, que odiava Milosevic e que desejava a sua morte mas, no caso dos aliados entrarem em território sérvio, regressaria ao seu país para combater e expulsar o invasor. Nunca teve de tomar tal decisão. Cobardemente, ou sensatamente, as forças aliadas nunca entraram, por via terrestre, no território que, na altura, ainda se designava por Jugoslávia. Mas o episódio é esclarecedor em relação à capacidade de alguns para criar inimigos onde, potencialmente, teriam um amigo.
A terceira vez que pude constatar in loco os efeitos da guerra, foi na Bósnia, e foi, das três experiências, a mais dolorosa e a mais exigente psicologicamente. Porque, para além dos fantasmas da morte, que vagueiam pelas ruas e pontes de Sarajevo, que se podem encontrar em cada esquina disfarçados de flores cerimoniais, que se vêem nas paredes dos edifícios, carcomidas por buracos de balas ou na encostas da cidade, ocupadas por cemitérios sem fim, fui confrontado com histórias. Para além do interminável percurso entre a estação de camionetas e o centro de Mostar, cercado por ruínas que encerram no seu silêncio o testemunho da tormenta, para além da mítica ponte velha que ligava as duas margens do rio Neretva e que agora descansa em paz nas suas águas, para além de tudo isso, ouvi a história de Almir, um jovem músico que perdeu parte da sua infância. Talvez um dia a conte.
Carlos Miguel Fernandes
Publicado por CMF às fevereiro 15, 2004 11:33 PM