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fevereiro 03, 2004

Budapeste

Desço a Rákóczi em direcção ao rio. É curioso como os caminho que nos levam para a água são habitualmente designados como descidas. Ou serão aqueles que nos levam ao centro da urbe, à "baixa" da cidade? Na verdade, a "baixa" da cidade costuma estar junto à água, por isso descemos, para o centro, ou para um rio ou mar. O núcleo ribeirinho de uma povoação sugere o embrião da mesma mas, se nos recordarmos que muitos cursos de água têm os seus limites controlados há apenas algumas décadas, a questão pode ser colocada de outra forma: a cidade não nasceu do rio, nasceu perto do rio e dele se aproximou cautelosamente, consciente da não perenidade das suas margens, sujeita ao capricho dos seus caudais por vezes demenciais, fixando-se nas suas margens, sazonal ou teimosamente, até o génio humano proporcionar a estabilidade mínima para garantir uma permanência menos desassossegada.

Desço a Rákóczi em direcção ao Duna, que avança para sul, esse ponto que, obstinadamente, também insiste em ficar por baixo para que, vindos do norte, para lá desçamos. A Rákóczi é substituída no seu percurso até ao rio pela Kossuth Lajos que por sua vez morre em Ferenciek tere para dar o seu lugar à Szabadsajto. É esta rua que desagua, finalmente, na Erzsébet hid, a ponte Elizabete, esteticamente a mais pobre das três pontes que ligam o centro de Peste à antiga Buda, que formam, com Óbuda, desde 1873, a cidade que permaneceu na sombra, primeiro de Viena, a principal metrópole do império austro-húngaro, depois do governo de Moscovo e da sua tirania castradora que atingiu o zénite numa manhã de 1956 ao som de rodas dentadas. Agora, a capital de um país que experimentou durante séculos a turbulência da História, pode tentar assumir o lugar que lhe pertence no centro de uma Europa a caminho dos Urais. A sua situação geográfica, que a tornaram numa ligação entre o Ocidente e o Oriente, as invasões e os impérios que viu passar e que lhe legaram também características de cidade charneira entre civilizações, um cosmopolitismo que junta povos desavindos noutras paragens, uma língua complexa e rica que faz parte de um clube restrito e de origem ainda pouco clara, indicam que esta cidade, plana do lado de Peste, irregular em Buda, pode ser, num futuro próximo e durante muitas décadas, uma das mais importantes capitais europeias, ao nível cultural, artístico e financeiro. Esta cidade chama-se Budapeste.

Carlos Miguel Fernandes

Publicado por CMF às fevereiro 3, 2004 01:09 AM

Comentários

Cada cidade tem a sua história, e a forma como os seus habitantes ou visitantes veêm-na parece-me sempre cativante... As cidades transparecem da escrita, vivas e quentes, com a sua (habitualmente) forte personalidade. Lembro-me de sonhar com Lisboa e escrever sobre esta cidade viva e charmante... Lembro-me de namorar com Paris e escrever... as cidades de Fès, Tanger e Meknès deixaram-me impresionada... E se calhar o maior namoro foi Goa, e as outras cidades indianas... Mas estou a devagar :). Gosto de cidades e gostei de ler a descrição de Budapeste. Acho interessante encontrar este tipo de descrição no vosso blog de vez em quando... Obrigada por me fazerem sonhar com viagens e descobertas...

Publicado por: Irina em fevereiro 3, 2004 10:29 AM

isto não é nada justo...

Publicado por: Ana [Lua] em fevereiro 4, 2004 05:06 AM

agora já podes (e deves) dissertar sobre Budapeste...

Publicado por: Ana em fevereiro 18, 2004 11:22 PM