maio 15, 2012
Terra
Conhecia bem aquele dorso branco: o Veleta, como uma lua em quarto crescente despenhada e semienterrada, o radiotelescópio apontado aos limites da galáxia, a lagoa de Yeguas por detrás, invisível desde o mundo terreno, mas sempre ali, perpétua e serena. Podia dizer em que mês estava só pelas lágrimas de neve das cotas mais baixas, agora ondulantes, moldadas pelo degelo, noutras alturas afiladas de neve fresca. Mas sabia também que as estações, em tão olímpico lugar, são apenas o disfarce que encobre o ritmo geológico. Ali em cima não existe tempo, pensou. E lá em baixo, ao largo do enorme maciço bético que agora contemplava, os homenzinhos, patéticos na sua insignificância, nascem, vivem, morrem, em gerações atrás de gerações, em civilizações erguidas e derrubadas, em guerras com pausas para a paz, num fogo destruidor e regenerador que nunca chega até aquelas atmosferas rarefeitas onde as pegadas da criatura solitária são ainda mais efémeras. Não há lugar para os homens na eternidade. E com esta certeza baixou a cabeça e pousou-a sobre a mochila.
Estava sozinho, na antecâmara da alta montanha, deitado sobre um imenso prado verde. Duas águias sobrevoavam o vale, até desaparecerem, camufladas por um cabeço ocre. Diante de si, o refulgente dorso branco, o telescópio, o Veleta. E o silêncio, apenas interrompido pelo ocasional voo picado de algum moscardo de primavera. Um homem tem que subir uma montanha ou perder-se no mar para encontrar a solidão e ter uma ideia minimamente consistente sobre si próprio. Lera isso em algum livro. Ou talvez fosse apenas uma das suas notas, escritas com letra ébria ao balcão de um bar de má morte. Não se recordava. Mas escreveu outra nota, mental: não vivemos, somos apenas testemunhas do mundo. E logo levou a mão ao bolso para confirmar se tinha dinheiro trocado. Há uma altura da vida, reflectiu, enquanto sentia o metal inerte entre o indicador e o dedo médio, um derradeiro período, depois de enterrados os machados de guerra e os primeiros fantasmas, em que devemos levar sempre uma moeda no bolso. E ainda que cem anos de solidão não lhe parecessem um mau projecto, acreditava que um homem livre deve ser sempre dono do seu destino. Assim, a moeda, ou para Caronte ou para o fundo do Estige.
Carlos Miguel Fernandes
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maio 02, 2012
Cortejo de Imbecis
O regime definha, arrasta-se, destrói vidas e sonhos, e que pede a maioria da opinião pública portuguesa? Mais. Mais Estado, mais controlo, mais veneno. E rebelam-se contra quê? Contra qualquer tímida reforma deste mutualismo entre o vírus abrilista e uma célula salazarista que, inevitavelmente, descambou num parasitismo trágico. Nas barricadas que se vão montando, a receita é igual, só varia o tempero: de um lado, exige-se mais socialismo; do outro, entre conversas de café “no-tempo-do-salazar-é-que-era“ e análises mais “ponderadas” e amparadas por números, fazem-se outros apelos liberticidas. Mas os maluquinhos são os liberais (perdão, neoliberais). Esses sim, são fanáticos, utópicos, egoístas e parece que agora até comem crianças ao pequeno-almoço. Enfim, a inteligência da espécie humana é um conceito muito sobrevalorizado, já sabemos. Que siga a palhaçada e o desfile dos imbecis.
Carlos Miguel Fernandes
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abril 29, 2012
Memória Externa
As fotografias e as notas são roteiros do passado que ajudam a encontrar um refúgio quando nos perdemos no vasto mar cognitivo. Mas para isso é preciso voltar a elas, às fotos e às notas, com regularidade, vasculhar arquivos, revirar caixas em busca de apontamentos esquivos, abrir e fechar pastas, virtuais e reais, sem método, como quem navega privado de mastro e vela. Ontem encontrei um bloco-de-notas delgado e pouco maior do que uma carta de jogar, com a capa gordurosa e vincada, que levava comigo na digressão de Junho de 2011 por Filadélfia, Nova Iorque e Nova Orleães. Ali tenho anotada a morada do Praline’s Connection (543 Frenchman St., New Orleans), onde comi Gumbo Zaire, Crawfish Étouffée e uma exótica Fried Aligator Sausage, naquele derradeiro mini-festim com o qual, desolado, me despedi da Big Easy; ficou também uma nota sobre a primeira impressão que me causou a exposição de Sean Landers na galeria Friedrich Petzel (535, W 22nd St., New York), “um palhaço, o mar, tempestades, calmaria, início e fim…”; e uma Coney Island Albino Python White Lager que bebi não sei em que taberna esconsa de Manhattan; e Elliott Erwitt, New Orleans, 1949 apontado numa das páginas, antes de Ruth Gruber e Photography and Anthropology, Christopher Pinney; e, principalmente, o cartaz que estava pendurada por trás do balcão da lendária White Horse Tavern da rua Hudson do Village nova-iorquino e que dizia isto: To all employees: Jim has no friends or family. Be suspicuous of anyone clayming otherwise.

Carlos Miguel Fernandes
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abril 26, 2012
Terna é a Noite
Detour (1945), de Edgar J. Ulmer, conta a história de Al Roberts, um homem preso entre dois destinos, um pianista de taberna que, quando nos é apresentado, já olha para os melhores anos, os da esperança e do vigor, pelo retrovisor de um carro desgovernado. Talentoso, mas lúcido, acaba por render-se e assumir o fracasso, e foge de Nova Iorque, rumo ao sonho americano, ao oeste, a uma família adiada. Fica pelo caminho, entregue às teias que um universo amoral tece.
Somos as escolhas que fazemos. Mas também há lances forçados, aqueles que nos obrigam a recuar uma, duas, dez jogadas, para termos uma ideia de qual foi o passo em falso e o momento da derrota. Demasiado tarde para emendar a mão, resignamo-nos, enterramos os nossos mortos e pagamos as nossas contas, e aprendemos então a guardar os fantasmas em caixas bem arrumadas, que retiramos do armário das memórias só para recordar o circo de destroços que é o passado. E ficamos a ver o mar, nada mais do que o mar, desde uma varanda imaginária, enquanto soa um piano e uma valsa de Chopin cuja harmonia é perturbada pelo boogie-woogie de uma mão direita trocista e imponderável.
Carlos Miguel Fernandes
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abril 25, 2012
Sociedade Politicamente Correcta, Sociedade Sem Cultura
(Também n'O Insurgente)
Muy buena es la mujer si no tuviese
ojos con que llevar tras sí la gente,
si no tuviese lengua maldiciente,
si a las galas y afeites no se diese.
Si las manos ocultas las tuviese,
y los pies en cadenas juntamente,
y el corazón colgado de la frente,
que en sospechando el mal se le entendiese.
Muy buena, si despierta de sentido;
muy buena, si está sana de locura;
buena es con el gesto, no raída.
Poco ofende encerrada en cueva oscura,
mas para mayor gloria del marido
es buena cuando está en la sepultura.
Francisco de Quevedo, Inconvenientes de las mujeres
Arturo Pérez-Reverte, ex repórter de guerra, excelso prosista e cronista sem medo do zeitgeist, esteve ontem em Granada, no Auditório Manuel de Falla, para uma conversa com Rafael de Cózar y Pepe Belmonte. Retenho dois pontos do encontro que marcou o início do IX Festival Internacional de Poesia de Granada: 1) O “politicamente correcto” é um sintoma de uma sociedade sem cultura; 2) Se nos fechassem durante três dias ali, no Manuel de Falla, sem água, sem luz, sem comida, logo começaríamos a matar, a roubar, e a violar. Pensem nisso quando virem a feminazi do Chiado, que não sabe lidar com as suas neuroses, a gritar contra a linguagem machista ou a sociedade patriarcal. Pensem nisso quando virem o “progre” pedante do Lavapiés madrileno a fazer o elogio do multi-culturalismo, contra a >elite cultural fascista. Ali vão os alarves sem cultura, sem passado, sem biblioteca, prontos a queimar qualquer obra que apresente o mínimo sinal de incompatibilidade com uma doutrina que não tolera diferenças ou desvios, mesmo quando essas diferenças já deveriam estar esbatidas pelas brumas da História. Ali vão os filisteus que, apesar de se sentirem muito superiores ao vizinho, para o qual olham de soslaio com a arrogância de quem nunca pensou duas vezes sobre as suas certezas, se comportariam como qualquer ser humano quando postos numa situação limite. Ou ainda pior, porque, e pegando numa feliz frase de Pérez-Reverte, cultura também é não gritar quando o avião cai. Mas é precisamente isso, berraria e histeria, aquilo que vamos vendo nas praças e primaveras de todo o mundo.
Carlos Miguel Fernandes
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abril 23, 2012
Trabalho pessoal, História da Fotografia, foto-livros, exposições e tudo o que tenha a ver com fotografia. Em "estrangeiro", numa página do Facebook: Carlos M. Fernandes - Photography.

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NYC
Nova Iorque. 2001 e 2011. Sete imagens que não descrevem coisa alguma, a não ser um sonho, uma passagem, a silhueta frágil de uma cidade em permanente processo transformação. Sete imagens impressas pelo autor em papel baritado, 10x15cm, virado a selénio para maior estabilidade em arquivo. Fotografias datadas, assinadas e numeradas no verso. Guardadas em papel Munktell com ph neutro e 100% algodão. A caixa, "ephemera" do Metropolitan Museum, foi comprada no Cloisters, NY, Fort Tryon Park. Edição limitada: 1 (+1 para arquivo do autor).


Carlos Miguel Fernandes
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abril 14, 2012
Imagens de Málaga
Museu Picasso. Logo à entrada da exposição permanente podemos ver um filme do mestre malaguenho a pintar formas simples, num vidro, com um pincel e tinta branca. O traço de Picasso é firme, decidido e virtuoso. A arte do século XX (e até o próprio Picasso, involuntariamente) transmitiu a ideia, tragicamente equivocada, de que o artista pode saltar as normas e a aprendizagem básica e ir directamente para a exibição das suas neuroses, ignorância ou falta de sentido estético. O resultado está à vista. Não há inovação, renovação ou criatividade sem talento e bases culturais firmes.
…
Ainda o Museu Picasso. Exposição, temporal, de fotografia. O mestre retratado por Man Ray, Cecil Beaton, Doisneau, Capa, Lartigue, Edward Quinn; o estúdio de Paris fotografado por Henri Cartier-Bresson; Picasso no Café Flore, fotografado por Brassai; Picasso em Paris, 1916, por Jean Cocteau; Picasso numa corrida de touros, por Quinn. A história de uma vida singular, em imagens. E também um compêndio da fotografia europeia da primeira metade do século XX, que tinha a capital francesa como eixo central. Tentamos imaginar como seria a nossa ideia de passado sem a fotografia. Não conseguimos.
…
Saímos de Málaga ao início da tarde, sob um vento de levante que tocava nos ossos. Seguimos para norte, pela auto-estrada, até à altura do Puerto de las Pedrizas, onde virámos para oeste, no sentido de Villanueva de la Concepción. A famosa uva moscatel de Málaga, assim como as amendoeiras, os olivais e os laranjais, andam por estes montes, em cujos prados verdes o vento desenhava agora ondas efémeras, vivas, como se quisesse entreter e embalar os viajantes. Lá em cima, no Torcal de Antequera, o mesmo vento, juntamente com outros agentes erosivos, deixou marcas mais permanentes. Os elementos e o tempo são os escultores da natureza macroscópica. O homem imita a natureza. Ou, como diria Jackson Pollock, o homem é natureza.
Carlos Miguel Fernandes
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