fevereiro 09, 2010
As Baratas
(Também n'O Insurgente)
A voz popular costuma dizer que as baratas herdarão a Terra depois de um desastre nuclear global. Pode ser um mito urbano, mas é certo que o triunfo das espécies não é indissociável do meio ambiente (com tudo o que isso tem de volátil), como sabe qualquer pessoa que entende um pouco mais de evolucionismo do que o “suficiente” para falar de guerrinhas em escolas do Kansas. A III República criou as condições ideais — o desastre nuclear de Portugal — para que uma espécie de gente reles, sem o menor sinal de carácter, conquistasse o poder. O primeiro passo é livrar o Estado das suas garras, mas depois há que fazer algo pelas débeis instituições. Caso contrário, voltarão em força. Como as baratas.
Carlos Miguel Fernandes
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Todos pela liberdade

Há dois anos escrevi aqui: Portugal já não é apenas um pântano. É cada vez mais uma ópera bufa.
Na altura pareciam coisas pequenas, insignificantes, e muita gente ainda encolhia os ombros e olhava para o outro lado. Num país sem cultura de Liberdade é fácil deslizar, lentamente, para um quotidiano de servidão. Mas hoje, já são muitos mais aqueles que perceberam que o Estado foi ocupado por um bando que representa o tecido mais reles, da sociedade portuguesa, que a III República urdiu. Está na hora de dizer: basta!
Carlos Miguel Fernandes
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fevereiro 02, 2010
O País Visto de Longe XXIV
Ah padron, ah padron! Ah padron, siam tutti morti!
O Commendatore aceitou o convite para jantar. Os leporellos estão mortos de medo. Esperam-nos tempos interessantes.
Carlos Miguel Fernandes
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janeiro 26, 2010
Coronemus nos rosis antequam marcessant
O Teatro Real de Madrid está, neste mês, a apresentar a ópera Der Fliegende Holländer, de Richard Wagner, encenada por Àlex Rigola. Numa entrevista, Rigola afirmou ter considerado a hipótese de situar o drama numa cidade do deserto — e até mesmo no espaço! — mas, felizmente, apercebeu-se a tempo da importância do mar e do vento nesta obra de Wagner, e acabou por levar o seu Holandês para uma fábrica de conservas na Noruega. “Foram erros de principiante”, disse, com uma honestidade que deve ser realçada. No entanto, a confissão, que pode parecer uma mera ilustração do processo criativo, leva-nos à seguinte perplexidade: como é que a direcção de um dos mais importantes Teatros de ópera da Europa contratou alguém — um principiante? — que não compreendia a importância do mar em Der Fliegende Holländer!? Dados estes e outros episódios — parece que o director anterior, substituído no início de 2010 por Gérard Mortier, não deixou muitas saudades —, e porque 50,7% do financiamento do Teatro Real tem origem no erário público, é legítimo questionar a competência de quem gere esse dinheiro. Pelo menos. Mas, por muito que isso incomode as almas mais estatistas que andam sempre com a Cultura na boca, a questão principal aqui é a legitimidade do Estado para se envolver nestas actividades, pelo menos com o peso que tem no Teatro Real de Madrid (e no São Carlos, para dar outro exemplo). Quando lidamos com uma crise de proporções respeitáveis o tema é ainda mais urgente, e não o encarar é quase obsceno. Para nos ajudar a enquadrar o problema, e para nos lembrar que as correntes dominantes não são a Verdade, chegam-nos, do passado, relatos históricos e ficcionais. Wagner, por exemplo, não conseguiu sensibilizar Bismarck — um dos pais fundadores do Estado Social, recorde-se — para as virtudes do seu Bayreuth Festspielhaus e não teve o financiamento (público) que desejava. Não foi por isso que deixou de construir o mítico teatro. Mas no passado fim-de-semana, quando me desloquei a Madrid para assistir ao referido Holandês, quem me acompanhou nestas cogitações foi Calisto Elói, uma voz dissonante num parlamento oitocentista tão imaginário como real.
Quis o destino que um livro que, por um daqueles infortúnios inevitáveis da vida, me veio parar às mãos há vinte e seis anos, e que de certa forma, com mais uma mancheia de obras, inaugurou a humilde biblioteca que agora tenho que transportar de casa em casa, me fizesse companhia nas cinco horas de viagem que separam Granada de Madrid. A Queda de um Anjo, de Camilo Castelo Branco, andava por aqui há muito tempo mas nunca antes me havia engolfado no seu enredo. É então que, numa viagem para a capital, para assistir a uma récita lírica, acompanho finalmente as desventuras de Calisto Elói, o morgado da Agra de Freimas, em Lisboa. Despertou-me maior atenção, claro, tendo em conta o contexto, aquela intervenção do morgado no parlamento na qual o financiamento do Teatro São Carlos é escrutinado e desancado. A páginas tantas cheguei a Madrid.
Logo após pousar as malas no hotel, para os lados da Plaza Mayor, dirigi-me ao Teatro Real, por trilho incerto, para levantar a entrada que me havia custado seis euros. Seis euros! Os mais informados, prevendo já um solilóquio descuidado, dirão que o preço do bilhete não permite, per se, inferir conclusões sobre a bondade do financiamento estatal da Cultura e sobre qualquer espécie de “subvalorização” dos bilhetes, e têm razão. No Met de Nova Iorque arranjam-se lugares por preços semelhantes. Mas sobre o Met sabemos que o financiamento público é residual (menos de 1% do orçamento da casa). No Teatro Real não é assim, e alguém, involuntariamente, pagou por aquelas duas horas e meia de prodigiosa música wagneriana das quais desfrutei. Quem terá sido? Talvez o camarero russo do bar de pinchos onde ancorei depois de sair do teatro. E onde, por uma cerveja e dois pinchos, paguei mais do que por um bilhete para assistir a uma ópera de Wagner numa das mais vibrantes capitais europeias. Foi então que me lembrei de Calisto Elói.
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janeiro 16, 2010
Tempos Difíceis
O museu Memoria de Andalucia, no novo edifício da Caja Granada (desenhado pelo arquitecto Campo Baeza), não faz uma única referência aos touros mas, noutros aspectos da História e cultura andaluza, é bastante detalhado. Haver uma doutrina do “politicamente correcto” a tentar condicionar o presente já é suficientemente ridículo, cansativo e inadmissível. Quando a mesma pretende combater o passado e apagar, da memória de uma região, o que sempre foi — e ainda hoje é! — um pilar da vivência de grande parte das suas gentes, então estamos perante uma espécie de crime lesa-património. (Será que ainda há livros de Hemingway na Biblioteca da Andaluzia? É preciso cuidado com as fogueiras que os herdeiros de Torquemada gostam de atiçar.)

Carlos Miguel Fernandes
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janeiro 10, 2010
Granada, Hoje



Carlos Miguel Fernandes
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janeiro 09, 2010
Aquilo que Fere
Uma década, ou mais, após a primeira leitura, volto à Câmara Clara de Roland Barthes, por obrigação de um ofício facultativo (talvez esteja no registo do studium). O punctum, o conceito introduzido por Barthes, é consequência de impenetráveis razões, nasce em lugar incerto e move-se com o tempo. Na fotografia de James Van der Zee, Retrato de Família (1926), o punctum (de Barthes?, da fotografia?) desloca-se dos sapatos de presilha da negra endomingada para o colar que esta trazia ao pescoço; ou seja, é imediato e incisivo, mas também pode dotar-se de uma certa latência. Abusando do conceito e transpondo-o para a própria obra que o apresenta, vejo o punctum no abalo provocado por um trecho que há dez anos talvez me tenha passado despercebido. Ou não, e — entrando no terreno pantanoso das teorias do subconsciente e nas pseudo-ciências “psicanalíticas” que enfraquecem um pouco o livro de Barthes — isso poderia explicar muita coisa.
Uma casa antiga, um pórtico sombrio, telhas, uma decoração árabe do passado, um homem sentado encostado a uma parede, uma rua deserta, uma árvore mediterrânica (Alhambra, de Charles Clifford). Esta fotografia antiga (1854) toca-me: é aqui, simplesmente, que eu desejava viver. Este desejo mergulha em mim a uma profundidade e através de raízes que eu desconheço: calor do clima? Mito mediterrânico, apolinismo? Deserdação? Reforma? Anonimato? Nobreza? Seja o que for (de mim próprio, das minhas razões, dos meus fantasmas) gostaria de viver lá em baixo como gente fina — e essa fineza nunca é satisfeita pela fotografia turística.
Roland Barthes, A Câmara Clara

Carlos Miguel Fernandes
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dezembro 30, 2009
Deuses, Homens e Servos
Certo dia, Beethoven e Goethe passeavam juntos em Teplice quando se cruzaram com a imperatriz e seu séquito. Beethoven não tirou o chapéu e não se afastou à passagem da caravana real, atitude que deixou Goethe chocado. Este é o problema da monarquia: como lidar com a - obrigatória? - legitimação divina do posto real, e, no caso de se saltar essa etapa, como transpor para a hierarquia mundana aquilo que só uma ideia de Deus pode justificar? Mas o que interessa é isto: Beethoven não podia fazer outra coisa, pois diante dele até Deus se curvaria. Afinal, olhando para o compositor e para a imperatriz, qual deles diriam que foi tocado pela chama divina?
Nota: não sou republicano nem monárquico (e se calhar até menos republicano do que monárquico). Vivo hoje numa Monarquia, como já vivi, e posso voltar a viver, numa República. Interessa-me mais a liberdade, e, se for um meio para atingir esse fim, penso que podemos chegar à legitimação da Monarquia, hoje, por duas vias: tradição e/ou pragmatismo. Só não me peçam para me curvar perante um homem ou uma mulher. Não me movem os ideais revolucionários de Beethoven – a principal razão para o seu comportamento naquele passeio com Goethe -, mas também não tenho vocação para servo.
Carlos Miguel Fernandes
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dezembro 29, 2009
Wagner e o Jargão
Em Wagner: Vida e Obra, Stephen Johnson escrutina a biografia do génio de Leipzig tendo como mote a sua polémica personalidade e as suas ideias, tão perversas como, por vezes, inescrutáveis, e que ficaram registadas em diversos textos. Nalguns desses escritos estão expostas as contradições e execrações de Richard Wagner, mas não apenas no conteúdo, pois a forma também reflecte o carácter duvidoso do autor, como se pode ler no episódio transcrito em baixo, relatado por Johnson. O estilo da pena de Wagner seguia, com aparente convicção, uma certo modo de “comunicar”, popularizado por Hegel, entre outros, que não é muito amigo da clareza. Mas o carrasco da Grande Ópera não foi uma personagem linear. Por isso, não nos surpreende que tivesse a capacidade de rir de si próprio. Eu talvez não me atrevesse a utilizar expressão “lampejos de humildade”, porque, afinal, a gargalhada e o comentário podem ser a apenas o reconhecimento de que, também ele, tomava os seus leitores por parvos. Mas saber rir é uma virtude, e, infelizmente, os cultores do jargão costumam levar-se demasiado a sério (ou disfarçam muito bem).
Como demonstração da evolução das suas ideias inovadoras, os escritos de Wagner podem ser muito elucidativos, mas raramente são de fácil leitura. Isto resulta em parte do facto de ter um estilo literário que tende a deixar-se enredar no tipo de linguagem inebriante e confusa que torna tão difíceis de ler os escritos do pioneiro alemão da filosofia da História, Georg Wilhelm Hegel. Do mesmo mal enfermam os trabalhos de tantos admiradores de Hegel da primeira metade do século XIX — um período magistralmente definido por um escritor moderno como “os anos loucos da filosofia”. Mas também neste aspecto Wagner era capaz de lampejos de humildade: uma vez, ao ler em voz alta passagens de uma obra filosófica que lhe incendiava o entusiasmo, Wagner viu-se questionado por um amigo — que queria dizer tudo aquilo? Wagner fez uma breve pausa e soltou uma grande gargalhada, acrescentando: “Sabes uma coisa? Não faço a mínima ideia!”.Stephen Johnson, Wagner: Vida e Obra
Não deixa de ser curioso que, a partir do Outono de 1854, Wagner passasse a estar sob a influência de Schopenhauer (o qual, já nos anos 1840, não se inibiu, apontou o dedo à filosofia de Hegel e disse: o rei vai nu). Ainda bem. Foi a partir do seu contacto com a filosofia schopenhaueriana que o compositor rompeu, revolucionou, e deixou marcas sublimes. Não é que a sua obra anterior seja apenas fogo-fátuo hegeliano, muito pelo contrário; a genialidade de Wagner estava muitos furos acima dessas vaidades. Mas sem o contacto com as ideias de Schopenhauer hoje não teríamos Tristão e Isolda, e o Anel teria seguido um rumo completamente diferente.
Carlos Miguel Fernandes
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Statua Hungarica


Carlos Miguel Fernandes
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dezembro 12, 2009
Gesta Hungarorum
Hoje, sábado dia 12, inaugura a segunda exposição da temporada da P4Photography. Às 17.00 na Rua dos Navegantes, nº16, Lisboa. Chama-se Gesta Hungarorum e aqui está uma breve descrição da ideia. Sobre o Gesta Hungarorum original, podem ler alguma coisa aqui.

Carlos Miguel Fernandes
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