maio 12, 2008

Hogar, Dulce Hogar

Calle Sol, entre a Pedro Antonio e o Camino de Ronda. O coração da cidade, como afirmou um amigo. (A Plaza Nueva já tem demasiados turistas nos meses quentes para que mantenha o estatuto entre os habitantes de Granada.) Do lado direito, um vislumbre do Albayzín.

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Carlos Miguel Fernandes

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maio 10, 2008

Arte e Dependência

Desaparecido e trucidado, durante uns dias, num combate contra a burocracia espanhola, tenho apenas cabeça, para já, para recomendar estes dois textos do Small Brother. E para acrescentar: na Catalunha de Pujol, todos os projectos artísticos cujo conteúdo pudesse de alguma forma ofender o Grande Projecto − a construção política na nação catalã − eram automaticamente excluídos dos programas de atribuição de fundos públicos; por vezes, os próprios artistas eram vítimas de perseguição política; com a governação socialista, tais práticas não foram alteradas (lembram-se de Frankfurt?). É muito justo e sério, este Estado Social, religião oficial da Europa Continental, que se auto-intitula defensor da liberdade e último baluarte contra a injustiça!

Carlos Miguel Fernandes

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abril 29, 2008

Mundo Artificiais

Republico aqui o texto Mundo Artificiais e Artefactos Naturais, que escrevi para o blogue Sais-de-prata e Pixels, no seguimento de alguns textos da Madalena Lello sobre Fotografia e Ciência. Podem lê-los aqui, aqui e aqui, antes de avançarem para os Mundo Artificiais (embora todos sejam auto-contidos).

Quem estiver interessado nas componentes científicas mais duras do projecto, pode consultar alguns artigos já publicados, como este, este, e também este. E este, o mais recente, a ser publicado pela MIT Press no âmbito da conferência Artificial Life XI, e que estuda a aplicação do modelo a mais dois problemas clássicos de engenharia.


Mundos Artificiais e Artefactos Naturais

Entre a Arte e a Técnica há um terreno quase inescrutável. Onde está fronteira entre a obra de Engenharia e a obra de Arte? O artefacto nasce do impulso criativo ou apenas do conhecimento acumulado? Onde começa o acto criativo e termina o fascínio pelo aparelho? Será o objecto de Arte apenas ambiente trabalhado pelo Homem, com o objectivo de comunicar ideias, um meio onde se acumula a cultura e a consciência do passado? (E, nesse caso, o ambiente como meio de comunicação entre os outro animais é apenas um objecto natural, que pode ser fascinante pela sua beleza, mas vazio de consciência? Voltamos ao tema mais tarde.) A Arquitectura é, desde há vários séculos, zona de confluência de muitas destas questões. Mais recentemente, a Fotografia e o Cinema vieram alimentar o problema ao trazer consigo a complexidade técnica dos aparelhos e do meio de registo. (Na Fotografia, o aparelho e a química fascinaram antes da Obra. O aparelho foi mesmo utilizado antes da Fotografia, como veremos mais à frente.) E algumas experiências nas artes visuais, introduzidas no século XX, ocuparam campos que antes pareciam estar apenas reservados às ciências da cognição (vide Gestalt e Bauhaus, por exemplo).

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Francis Frith, 1862

Os universos artificiais (ou emergentes, para ser mais correcto), oriundos das ciências da complexidade e da notável evolução dos computadores nas últimas três décadas (os quais permitiram a realização de experiências reveladoras, autênticos Descobrimentos das terras da Complexidade), podem ser a mais recente ferramenta de análise dos obscuros contornos que delimitam (ou não) as fronteiras entre Arte e Ciência (e Arte e Técnica). No entanto, é necessário ter algum cuidado com as afirmações mal medidas.
Actualmente, fala-se muito sobre uma hipotética Arte Artificial, nascida das disciplinas Inteligência Artificial e Vida Artificial. Dá-se o nome Arte Artificial a processos tão distintos como criação de formas com Algoritmos Genéticos (criação necessariamente guiada por uma avaliação humana), e peças “criadas” por sociedades de insectos artificiais. Mas poder-se-á adjectivar como Artificial um processo conduzido por mão humana (como acontece na Arte gerada Algoritmos Genéticos, os quais são processos evolutivos de selecção e recombinação de soluções que necessitam de uma qualquer forma de avaliação dessas mesmas soluções); e um desenho que emerge de um modelo da Natureza (colónias de insectos artificiais) é um objecto de Arte (Artificial ou não)? Se vamos atribuir o epíteto de Arte a qualquer objecto criada por modelos que simulam o comportamento dos animais, então porque não dizer também que estamos perante Arte quando observamos os artefactos criados pelos próprios animais na Natureza? O voo de um bando de pássaros é uma coreografia consciente, uma obra de Arte? A estrutura/desenho de um formigueiro na busca de alimento é uma obra de Arte? Não creio. Restar-nos-ão apenas os modelos estritamente artificiais, não inspirados em qualquer modelo natural, mas apenas o resultado da aplicação de regras simples, das quais emerge comportamento complexo (Autómatos Celulares, por exemplo)? Mas então precisaríamos de estabelecer uma diferença clara entre esta Nova Ciência (usando as palavras pomposas de Stephen Wolfram, A New Kind of Science, o título do seu livro sobre as Ciências da Complexidade) e a “Velha” Ciência. A Matemática, por exemplo. Como dizia o poeta, o Binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo (O que há é pouca gente para dar por isso, Álvaro de Campos/Fernando Pessoa). Uma paisagem de feromona artificial (feromona é a substância usada na comunicação entre formigas) transposta para um modelo tridimensional não é mais do que um Binómio de Newton da Nova Ciência. É uma descoberta ou uma criação? Resolva-se esse velho problema filosófico da Matemática e temos a resposta para algumas questões (aparentemente) modernas. Mas uma coisa é certa: dificilmente alguém atribuiria ao Binómio qualidades de Arte Artificial. Beleza, sim. Arte Artificial, não.

O que nos podem dar então estas Ciências que estudam os fenómenos emergentes para o diálogo entre Arte e Ciência? Talvez aquilo que a Técnica sempre nos deu: ferramentas. Ferramentas analíticas, e ferramentas no sentido literal. Vamos recuar no tempo, até ao aparecimento de um desses objectos, incontornável na História de duas artes, Pintura e Fotografia: a camera obscura.

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A camera obscura é “a máquina fotográfica” antes da descoberta da Fotografia. Os seus princípios de funcionamento já eram entendidos no tempo de Aristóteles, mas foi a partir do século XVI, quando no pequeno buraco das cameras obscuras originais foi colocada uma lente convexa, que o aparelho se transformou num meio para o registo permanente de imagens. Na Pintura, Vermer e Canaletto são apenas dois exemplos de artistas que utilizaram a camera para a criação de algumas das suas obras. Quando Johann Heinrich Schulze (1687-1744) ainda fazia fotogramas com letras recortadas e coladas em garrafas cheias com cloreto de prata e ácido nítrico, quando a daguerreotipia ainda era um sonho de Niépce (1765-1833), já o apparatus estava mais do que preparado para receber a nova invenção. Mas, antes da invenção da fotografia, a camera obscura servia “desenhar por cima” (na verdade também foi útil na astronomia, muito antes de Vermeer a utilizar). Hoje, nas paredes dos museus de todo o mundo abundam obras que nasceram deste artefacto. A imagem era projectada, através da lente, numa superfície de desenho. Depois, era só seguir as linhas para executar o esboço. Mais tarde, começou a ser usada para projectar imagens sobre superfícies nas quais se pretendiam fixar essas mesmas imagens por meios químicos. (Fixar!, o grande problema da Fotografia, aquele que atrasou o aparecimento talvez por duas décadas.) A mesma luz, e a prata a substituir os dedos do artista. Baudelaire (1821-1867) agitou-se, mas tinha pouca razão. A ponte entre Fotografia e Pintura já havia sido construída pelos pintores que carregavam a camera obscura quando saíam do estúdio.
Durante cerca de cento e cinquenta anos, o aparelho, com poucas alterações, foi usado como o primeiro passo no acto mágico de fixar a luz nos sais de prata. A luz escurece a prata, a revelação acelera o enegrecimento, e o tiossulfato de sódio elimina a prata não escurecida, fixando a imagem para a posteridade. Entretanto, os sais de prata foram substituídos pelo silício, e o grão pelos pixels. Estamos na era da Fotografia Digital. Mas mantendo o pensamento na camera obscura, vamos agora olhar para um artefacto nascido da simulação de fenómenos emergentes, só possível com a tecnologia actual. Uma espécie de câmara digital onde formigas artificiais desenham com feromona. Uma camera obscura para formigas.

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Julia M. Cameron, retrato de John Herschel, “inventor” do fixador

O processo é acessível a qualquer pessoa com conhecimentos mínimos de programação. O resultado final, o desenho com feromona (artificial), emerge da interacção entre agentes que seguem regras simples. Imaginemos uma imagem digital, monocromática, como uma rede com a dimensão da imagem (em pixels), na qual, em cada célula, está armazenado o valor do pixel, ou seja, o seu “grau de cinzento” (onde existe o negro temos 0, e onde existe o branco temos 255; entre esses dois valores é representada com alguma exactidão a gama de cinzentos de uma imagem tonalmente rica). Chamemos-lhe habitat. Cada formiga só “vê” localmente, isto é, conhece o valor da célula onde se encontra e das células em seu redor; as formigas não têm percepção global da imagem (ou do habitat), esta emerge da interacção ao nível local. (A acção de uma formiga, isolada do enxame, não é suficiente para criar um mapa cognitivo como aquele que se vê na figura, e é necessária massa crítica suficiente - número mínimo de formigas - para o estabelecimento de redes de comunicação e para a emergência de ordem.) Para além dessa capacidade sensorial, as formigas “andam” e depositam feromona nas células por onde passam. A intensidade de feromona depositada depende do contraste das zonas onde as formigas se encontram: se uma formiga, ao observar a sua célula e aquelas que estão em redor, “percebe” que está numa área da imagem com elevado contraste, deposita muita feromona; caso contrário, deposita menos (o processo é gradual, claro). Por “andar”, entende-se passar para uma das células adjacentes. Como escolhe a formiga a célula para onde se vai dirigir de entre aquelas que a rodeiam? Através de um processo probabilístico que depende da quantidade de feromona que se encontra em cada uma das células. Resumindo, as formigas tendem a mover-se para locais com mais feromona, e, ao mesmo tempo, vão incrementando a feromona quando encontram áreas de maior contraste. Seguir e reforçar. Estamos perante um fenómeno stigmérgico, isto é, comunicação indirecta através do ambiente (o termo stigmergia foi introduzido por Pierre Paul Grassé em 1959). Falta referir uma parte fundamental do modelo: a evaporação. Em cada iteração (isto é, após todas as formigas terem executado as suas duas tarefas, dar um passo e depositar feromona), a feromona em todas as células do habitat é atenuada de um modo uniforme. Sem evaporação o modelo não produziria os resultados que se observam. É a evaporação que permite a emergência de novos caminhos para as formigas, é a evaporação que permite a correcção de erros ou a posterior readaptação a um novo ambiente; imagine-se o caso em que a imagem é retirada, e no seu lugar é colocada outra, ou o caso de uma imagem em movimento: sem evaporação o formigueiro dificilmente se conseguiria adaptar a um ambiente em constante mutação. Compara-se a evaporação ao esquecimento, e temos uma possível linha analogia com os fenómenos neurológicos, dos quais falaremos mais adiante.

Neste ponto podemos fazer uma ligação simples entre o modelo descrito e a prata do processo químico. As formigas reforçam as linhas depositando mais feromona (revelador), enquanto a evaporação elimina o que não interessa (fixador). Se nos lembrarmos que o grão (a alma da fotografia, Paulo Nozolino) surge dos “buracos” que aparecem na película devido à agregação dos sais de prata quando os tempos de revelação são longos, temos um quadro ainda mais interessante. Tal como as linhas desta camera obscura para formigas, que nascem do reforço constante de feromona nas áreas favoráveis, o grão emerge do reforço de revelação.


Esta camera obscura para formigas foi inspirada num modelo desenvolvido pelos cientistas Dante Chialvo e Mark Millonas (How Swarms Build Cognitive Maps, 1995). Por sua vez, o modelo insere-se na vasta gama de Ant Algorithms, inspirados no comportamento das formigas na Natureza (na forma como utilizam a feromona para encontrar os caminhos mais curtos entre o formigueiro e as fontes de comida, na forma como organizam os detritos em redor do formigueiro, na forma como algumas espécies de formigas constroem galerias subterrâneas, etc..) Estes agentes simples que geram deram comportamentos colectivos complexos origem a novos paradigmas de optimização, progressos no estudo da Complexidade, e até talvez tenham aberto caminho para progressos nas neurociências. No artigo referido, Chialvo e Milonas defendem que pode existir uma analogia, mais do que metafórica, entre o comportamento das formigas e a auto-organização dos neurónios: The self-organization of neurons into a brain-like structure, and the self-organization of ants into swarms are similar in many respects. Douglas Hofstsader, no seu célèbre livro Godel, Escher e Bach, Laços Eternos, já antes referira ideia semelhante: There is some degree of communication among the ants, just enough to keep them from wandering off completely at random. By this minimal communication they can remind each other that they are not alone but are cooperating with teammates. It takes a large number of ants, all reinforcing each other this way, to sustain any activity – such as trail building – for any length of time. Now my very hazy understanding of the operation of brain leads me to believe that something similar pertains to the firing of neurons emergence of complex dynamical systems from the interactions of simple elements following simple rules.
Por isso designamos os mapas de feromona (desenhos) como mapas cognitivos. Isto poder-nos-ia levar a caminhos mais complicados. São as tais ferramentas analíticas. Não recusamos a empresa mas para já ficamos por aqui.

Carlos Miguel Fernandes

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As formigas, uma das espécies mais antigas, são a espécie animal mais numerosa, mais diversificada, mais activa, talvez a mais forte da criação. As formigas cultivam a terra, constroem cidades, apagam fogos, organizam migrações...e não sofrem modificações sensíveis há mais de 600 milhões de anos. Nas suas actividades intensas e multiformes notou o homem uma repetição escrupulosa e infalível. Na década de 1960, alguns cientistas, que acreditavam na evolução das espécies, viram nestas colónias de formigas o hipotético homem do futuro. Nas suas hipóteses previam que a consciência e inteligência do homem tendiam a desaparecer e em substituição uma repetição automática e perfeita das mesmas funções continuaria a manter a espécie humana. Hoje sorrimo-nos com tal hipótese.

“A estrutura/desenho de um formigueiro na busca de alimento é uma obra de Arte? Não creio. Restar-nos-ão apenas os modelos estritamente artificiais, não inspirados em qualquer modelo natural, mas apenas o resultado da aplicação de regras simples, das quais emerge comportamento complexo (Autómatos Celulares, por exemplo)?”

“O artefacto nasce do impulso criativo ou apenas do conhecimento acumulado?”,

Eis a grande questão que Carlos Miguel nos deixa para reflectir.

Ao leitor interessado deixo aqui dois links, “sobre as experiências nas artes visuais, que ocuparam campos que antes pareciam estar apenas reservados às ciências da cognição (vide Gestalt e Bauhaus, por exemplo).”

www.leonardo.info/isast/articles/behrens.html
saisdeprata-e-pixels.blogspot.com/2007/07/aprender-olhar.html

Madalena Lelllo


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abril 24, 2008

O País Visto de Longe XI

Leio e releio, e não consigo acreditar. Não, a desfaçatez não chegou a este ponto, digam-me que não! O governo prepara-se para penalizar as empresas que contratam a recibo verde*? Havendo gente a trabalhar para o Estado, há dez anos ou mais, a recibo verde? A democracia vai comemorar 34 anos e no poder temos o governo mais descarado, trapalhão e autoritário da terceira república. Depois de Santana Lopes ter chegado ao lugar de primeiro-ministro, pensávamos que o regime não podia descer mais baixo. Estávamos enganados. Ah, e parece que ele “anda aí”, o menino-guerreiro. O país como um tandem para Sócrates e Santana Lopes. Que bela visão!

Carlos Miguel Fernandes

*Um dos (muitos) problemas das causas progressistas é estarem nas mãos de gente que pouco entende de economia. Quando perceber que os penalizados são os trabalhadores, o governo vai fazer o quê?, fixar os valores dos salários? Talvez. Lembremo-nos do ridículo episódio dos ginásios...

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Fotografias

Notícias da P4. A próxima exposição, de Inês Gonçalves, inaugura no dia 8 de Maio. Umas semanas mais tarde, no dia 29, temos Victor Palla.

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...e MittelEur/opa renovado e aumentado, no Nafarricos.

Carlos Miguel Fernandes

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abril 21, 2008

A Camioneta da Adriana

Romania had no food, and practically no government, but it had the airline Tarom, and in every airport in Europe you could look at the arrivals board and feel that somehow the essence of Romania was perfectly evoked by the fact that the two hour flight from Bucharest was eleven hours late.
Brian Hal, The Impossible Country – a journey through the last days of Yugoslavia

Sim, há uma estação de camionetas na cidade, e tem ligações com Belgrado. Mas é melhor irem de comboio, disseram-nos.
Estávamos em Timisoara, e, ao contrário do que sucedeu um par de anos mais tarde em Novi Sad, ignorámos o conselho. Só havia um comboio diário a ligar Timisoara a Belgrado, e partia às seis da manhã em direcção à capital da Sérvia, onde esperávamos descansar uma noite e logo descer para a Macedónia. Seis da manhã, hora traiçoeira. Muito cedo e muito tarde. Cedo demais para dormir no hotel antes da viagem, pois de lá teríamos que sair a umas ridículas cinco da manhã. Muito tarde para nos perdermos na noite da cidade. A noite de Timisoara não é assim tão cativante. Pelo menos não era em 2004, não o suficiente para compensar o esperado desgaste e, consequentemente, uma viagem transformada em pesadelo por uma opção desvairada. Não, não podíamos ir de comboio. Pensado e feito, apontámos para estação de camionetas, que não ficava muito longe, e para lá nos dirigimos.

Chegámos sem dificuldade ao tosco pátio que passava por terminal de camionetas e logo encontrámos a desejada: Timisoara-Vrsac-Pancevo-Belgrado. A que horas parte, e em que dias?, todos os dias às vinte horas, Quanto?, (já não me lembro). Pouco passava das sete da tarde, e a camioneta parecia preparada para arrancar em hora marcada. Depois da breve conversa com o condutor voltámos para o centro de Timisioara mais animados e fazendo contas de cabeça. Menos de duzentos quilómetros separam as duas cidades. Mesmo contando com os inevitáveis atrasos na partida e na fronteira, era credível que a viagem não durasse mais do que cinco horas. Como a mudança de fuso horário nos favorecia, poderíamos estar em Belgrado antes da meia-noite. No melhor cenário, ainda teríamos tempo para descer a Skadarlija, e comer um mesano meso regado com Jelen Pivo, antes de nos recolhermos no Hotel Balkan e descansarmos para a longa viagem até Skopje. Entre estes “sonhos”, fomos caminhando no sentido do centro para aproveitar o último dia na cidade.

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Carlos M. Fernandes, Hotel Timisoara, 2004

Chovera durante a manhã e o céu continuava carregado. Voltámos a pé para o centro, do lado rio oposto à via por onde circulam os principais transportes públicos. As estações de comboio e de camionetas ainda estavam um pouco longe do coração da cidade. Nesse pequeno núcleo mais agitado situava-se o hotel Timisoara, onde nos alojáramos três dias antes, depois de uma serena viagem de carro pela Transilvânia, que culminou com uma noite passada numa caricata pensão, perdida numa aldeia da Crisana, mais preparada para acolher os negócios da carne do que dois viajantes vindos do outro lado do continente. Tínhamos todo o tempo do mundo naquele dia que parecia encerrar a primeira fase da viagem de 2004, e voltámos a pé pela margem esquerda do Bega. Fotografei, pouco. Dois cliques. Finalmente consegui registar na película a “minha” Roménia, a imagem mental, sensorial, que se formou em mim durante aquela viagem que estava a um passo de terminar. Um lugar desolado, cabisbaixo, que por vezes nos surpreendia com uma beleza pungente. Um lugar adiado.
Voltaríamos no dia seguinte, de malas na mão, àquela estação de camionetas no fim da Europa. Por enquanto, perdíamo-nos, sem rumo, sem pressa, nas ruas desertas de Timisoara. Mal sabíamos naquela altura que à meia-noite do dia seguinte ainda estávamos no parque de chaços onde nos disseram: todos os dias, às vinte horas!

(continua)

[14] Timisioara, Agosto 2003 362-5.jpg
Carlos M. Fernandes, Timisoara, 2004

Carlos Miguel Fernandes

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abril 18, 2008

Atlanta, Geórgia

Foi George Barnard quem me transmitiu a imagem que tenho de Atlanta. Uma cidade a nascer e a crescer, em meados do século XIX. Sei que por lá passaram os Jogos Olímpicos, mas como ligo pouco a esse tipo de eventos, não actualizei a "fotografia". Em breve vou confrontar-me com a Atlanta real, uma cidade com uma população (na área metropolitana) de cinco milhões de habitantes, capital do estado da Geórgia. A Coca-Cola, e muitas outras empresas de peso, escolheram Atlanta para instalar a sua sede. Pouco mais sei sobre Atlanta. Por agora, pois em Julho espero que passe a ser mais um pedaço de terra na geografia pessoal.

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George Barnard, Atlanta, 1864

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O País Visto de Longe X

Chegam mais novidades da terra da liberdade dos cravos. Os ginásios vão ter que justificar, à Direcção-Geral do Consumidor, as suas tabelas de preços! Já só falta mesmo um plano quinquenal. (Paulo Portas pediu, recentemente, uma investigação, ou inquérito, ou lá o que era, ao aumento dos preços nos últimos anos. Quando vemos que todo o cenário político de um país está contaminado pelo colectivismo, não há optimismo que resista.)

Carlos Miguel Fernandes

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abril 16, 2008

O País Visto de Longe IX

Continua a miséria no São Carlos. Quando se substituiu Pinamonti, falou-se em fazer melhor com menos dinheiro. Quanto ao primeiro objectivo estamos conversados. Sobre o "menos dinheiro", vamos fazer as contas no final.
Sobre a ideia de Henrique Silveira (Uma ideia interessante seria a de Jorge Calado para director do Teatro. Está jubilado da Universidade e é quem mais sabe do assunto em Portugal.), tenho a dizer que eu seria um apoiante entusiasmado dessa hipotética nomeação, mas não consigo esconder um pouco de egoísmo. Prefiro ver o Jorge Calado mais dedicado à causa da Fotografia. Porque, tal como acontece com a ópera, o Jorge Calado é quem mais sabe do assunto em Portugal, no que à Fotografia diz respeito.

Carlos Miguel Fernandes

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abril 15, 2008

O País Visto de Longe VIII

Algumas das últimas acções do governo português, a Lei do Divórcio e o “combate” ao trabalho precário, ilustram bem os dogmas e a desorientação das causas progressistas e socialistas: legislar a um ritmo furioso, tentar resolver problemas auto-infligidos, tapar os olhos perante a falência dos velhos modelos. Colocar a hipótese (pelo menos meditar num cenário hipotético) de que o trabalho precário é o resultado da cristalização do Estado-providência?, não, isso nunca. Solução: mais do mesmo. Libertar os cidadãos para que estes possam celebrar os contratos que bem entenderem?, não, isso nunca. Resolução: moldar o contrato de casamento de acordo com a religião progressista, e pelo caminho salpicá-lo com uns pozinhos de linguagem PC (Politicamente Correcta). Entretanto, quem não se quer casar, ou assinar um contrato de união de facto, não pode legar o seu património ao companheiro de uma vida. É assim a liberdade dos cravos (a homofonia é propositada).

Por falar em dogmas, já temos alguns resultados do combate às mudanças climáticas. Sequência de acontecimentos: consciência ecológica inquieta, incentivos públicos à produção de biocombustíveis, aumento da procura de produtos alimentares, subida dos preços desses mesmos produtos, crise global que se sente com particular violência nos países mais pobres. Houve, ou vai haver, diminuição de emissões de CO2? Até agora não há dados que possam sustentar tal crença. Há lições a retirar desta farsa? Há, mas não sei se os crentes estarão prontos a assimilá-las. Um repelão na Fé é um processo doloroso. Vamos com calma.

Carlos Miguel Fernandes

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abril 14, 2008

O País Visto de Longe VII

No sábado passado, entre uma Warsteiner e uma Pilsner Urquell, ali para os lados de San Antón, perguntaram-me se eu não estaria interessado em colaborar na abertura de um sushi-bar em Lisboa (mais precisamente, um sushi-tapas), uma extensão do restaurante do meu amigo Antonio. Uma vida em Lisboa ter-me-á dado, pensa o Antonio, conhecimentos suficientes para encontrar o espaço ideal e o pessoal adequado para o sucesso de uma casa que, no entanto, seria gerida a partir de Granada. Os desafios seduzem-me e nunca tive medo de transformar a vida numa aventura multi-disciplinar, mas receio embarcar em tal empresa. Não por mim. Mas sim pelas pessoas que, vindas deste país (que, apesar de tudo, é muito mais saudável do que Portugal), se enterrariam num lamaçal de legislação, burocracia e ASAEs. Lamento meus caros concidadãos, mas não sei se estou disponível para ajudar uma economia que não se ajuda a si própria.

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Carlos Miguel Fernandes, Granada, 2008

Carlos Miguel Fernandes

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abril 13, 2008

O País Visto de Longe VI

Não quero sustentar a tese com o empirismo, mas...serao necessários mais exemplos para demonstrar que Portugal se está a transformar num Estado policial, e que este governo socialista está empenhado em arrasar o que resta do edifício nacional? Uma coisa destas é aceitável num país que se diz livre? Haver carneiros que ainda seguem o pastor, cegamente, é talvez aquilo que mais choca. Porque, pior do que a repressão, é a repressao sem resistência.

Carlos Miguel Fernandes

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abril 11, 2008

...

O copo meio cheio ou meio vazio? Rejubilar com o sublime que já nos passou pelos olhos, ou ansiar por um porvir ainda mais magnífico? O Đurđevdan está a chegar, eu só estou bem onde não estou, e o calendário gregoriano é particularmente cruel.

Carlos Miguel Fernandes

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abril 09, 2008

Dogmas

Ontem Zapatero fez o seu discurso de investidura no parlamento espanhol. Ainda não haviam passado cinco minutos desde que começara a falar, e o candidato à presidência do governo já referira por duas vezes as mudanças climáticas e o empenho do seu programa em atacar o “problema”.
Na semana passada, uma decisão de um tribunal espanhol sustentou-se nas mudanças climáticas.
Está consumado! A falange progressista arquitectou mais um dogma. Não há retorno possível. A partir de agora seremos encaminhados pelos caminhos rectos e estreitos da eco-religião. Quem pisar ramo verde (literalmente?) será excomungado.

(No programa eleitoral de um partido ecologista espanhol li que se pretendia negociar com o futuro governo do PSOE uma modificação dos programas das aulas de educação cívica, uma radicalização das mesmas no sentido de educar as criancinhas para a moderação no consumo, e de as dirigir no sentido de uma vida regrada e estóica. Não estou a brincar. Devo informar que, em Espanha, estas aulas de educação para a cidadania substituíram as aulas de educação religiosa… Substituíram?)

Complemento.

Outro complemento: as fatwas da eco-religião, no blogue da Atlântico.

Carlos Miguel Fernandes

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abril 07, 2008

O País Visto de Longe V

A situação é cada vez mais ser hilariante, mas eu agora rio-me porque estou longe, muito longe. Enviaram-me por correio electrónico uma notícia do jornal Público (domingo, 6 de Abril) que reza assim:

As máquinas de bolas que dão direito a chocolates, habitualmente instaladas em cafés e restaurantes, podem ser consideradas ilegais e os seus proprietários ou responsáveis pela sua exploração acusados de crime de jogo ilícito. Num armazém no Centro do país, todo o material foi apreendido pela Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) com a justificação de que não era possível ao cliente perceber qual o chocolate a que teria direito antes de introduzir a moeda de 50 cêntimos. Há, no entanto, acórdãos dos tribunais que contrariam este entendimento.
As máquinas de cápsulas que contêm senhas correspondentes a chocolates ou a outro tipo de brindes, que saem mediante a introdução de uma moeda de 50 cêntimos ou um euro, são aparentemente inócuas, mas a sua má utilização pode levar os seus proprietários a tribunal.
Com a parte superior da estrutura em acrílico transparente, este tipo de máquinas tem habitualmente uma janela interior que permite ver qual a cápsula que vai sair. Lá dentro está uma senha com uma cor que corresponde a determinado chocolate. Se a janela estiver obstruída (por um autocolante, por exemplo), a máquina é considerada um jogo de fortuna e azar. E a sua comercialização é crime.
Foi o que aconteceu recentemente num armazém do Centro do país. O proprietário foi detido e o material (máquinas e cartazes de exposição dos chocolates) apreendido pela ASAE, que considerou haver prática de jogo de fortuna e azar, considerado crime. A justificação é que o jogador se limita a introduzir a moeda sem poder escolher o prémio da sua preferência, neste caso um chocolate.
(…)
Quanto à legalidade das máquinas de bolas correspondentes a prémios como chocolates ou outras pequenas utilidades domésticas, a mesma fonte explica que só é considerado jogo de fortuna e azar quando o "cliente não sabe o que vai sair".

Parece que as bolinhas com chocolates são os novos alvos da ASAE, a entidade protectora do consumidor desamparado. E porquê? Porque podem ser vistas como um jogo de fortuna e azar. Vamos falar um pouco sobre Granada e a sua tradição de tapeo.

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Carlos Miguel Fernandes, Granada, 2007

Aqui nesta magnífica cidade instalada nas encostas da Serra Nevada cultiva-se uma tradição que não vi em qualquer outra cidade espanhola, nem sequer andaluza, pelo menos a um nível tão amplo. Quando nos sentamos na barra de uma taberna ou na mesa de um restaurante e pedimos uma cerveja, um copo de vinho ou uma coca-cola, sabemos que vamos pagar alguns cêntimos acima daquilo que pagaríamos noutra cidade de dimensão semelhante a esta. Mas sabemos também que, com a cañita ou outra bebida, nos chegará às mãos uma tapa, sempre (conheço apenas duas excepções que confirmam a regra: a Casa Henrique e as Bodegas San Antón). Tirando algumas, poucas, tabernas onde essa tapa é eleita pelo cliente, a maior parte segue a política mais simpática (ou ultrajante, na perspectiva do fiel seguidor da ASAE): nunca sabemos o que nos vai cair no bucho. Claro que há lugares onde, após algumas visitas, vamos percebendo a ordem e adivinhando a sucessão de petiscos. Mas, mesmo aí, há sempre lugar para a improvisação e quando termina um ingrediente é necessário colmatar a falha. (Ou quando alguém se entusiasma e chega à sétima ou oitava tapa, obrigando o taberneiro a inventar qualquer coisa.) Em Granada, tapear é um jogo de fortuna e azar, no qual o consumidor não sabe o que o seu dinheiro vai pagar. Uma almôndega ou uma gamba? Uma fatia de presunto ou uma taça com paelha? Entramos em La Taberna de Bienvenido (calle Alhamar) para beber um copo de vinho e comer um petisco, e vamos encontrar a fantástica tapa de cordeiro, ou a mais banal tortilha (que, diga-se de passagem, não é nada má neste Bienvenido)? Nunca sabemos. Quem escolhe é o taberneiro.
Precisamos de uma ASAE que nos salve desta selva. Zapatero é um frouxo. Precisamos, aqui na Andaluzia, de um verdadeiro governo progressista que nos proteja destes ataques de empresários sem escrúpulos, porcos capitalistas que se aproveitam da ingenuidade do consumidor. (Nota: como é óbvio, não há menu de tapas, nem à entrada, nem dentro das tabernas. Um escândalo!)

Carlos Miguel Fernandes

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abril 03, 2008

As Granadinas III – Os Touros

Mas inicia su faena Ortega Cano. Silencio estremecido. Belleza. Comprensión plena entre el torero y la negra bestia. Arte. Lo indefinible. Un césar con dominio total de su noble enemigo. Una danza iniciática. Lo más grande.
Fernando de Villena, Por los Barrios de Granada

Granada não é o centro da tauromaquia em Espanha, longe disso! Sevilha, Málaga e Ronda têm praças mais famosas e com mais movimento. A praça de Granada só vê touros no Corpus Christi e numa ou outra corrida dispersa, em Abril ou Maio. Durante o resto do ano o lugar é apenas destino de boémia, pois debaixo das suas arcadas e nos quarteirões em redor há rotas de tapeo muito apreciadas pelos granadinos. Mas estamos no coração da Andaluzia, e os touros, claro!, correm nas veias desta cidade. Nas tabernas discute-se o rejoneo como se fosse futebol, e as fotografias dos matadores, muitas delas assinadas pelos artistas com dedicatória ao taberneiro, são expostas nas paredes em poses de estrelas de cinema. Restante memorabilia, como os cartazes que anunciam num passado saudoso Dominguín ou Manolete numa qualquer praça andaluza, ou os bilhetes de sol e sombra com deliciosos preços de outrora, dão cor, entre o vermelho e o sépia, às paredes de mui distintas tabernas, como a Espadafor, na Gran Vía, a Jabugo, na calle Socrates e a El Duende, na calle Duende. (Tudo lugares muito recomendáveis, pelo ambiente e pela comida. E não, não é apenas uma fachada turística. Na Andaluzia, a Festa sente-se e faz-se com fervor.) Dominando toda esta profusão de signos como um rei endeusado, está El Fandi, nascido David Fandila, o filho dilecto da cidade, albaicinero, herói de Granada, matador jovem mas já com incontáveis triunfos na algibeira, conquistados em praças ibéricas e latino-americanas. Em Granada não é possível escapar à aura de El Fandi, e os meses que passam vão afilando a curiosidade. Na Andaluzia, não é possível passar ao lado dos touros, e os meses vão trazendo fantasmas e memórias que julgávamos estarem serenados.

Fui educado com os touros. Quando o quente Verão alentejano recebia a minha ansiedade infantil de braços abertos, havia um roteiro taurino para percorrer. Atirei bonés. (E tantas vezes fui eu a apanhá-los nas entranhas da praça, pois raramente passavam das bancadas!) Assimilei lições preciosas. (Nas touradas não há vencedores, dizia-me o meu avô, certamente vendo os “triunfos”, as orelhas e as saídas em ombros como o reconhecimento da arte sem decretar vencidos.) Mas as lições ficavam sempre coxas, pois, como não podia atravessar a fronteira sem os meus pais (outros tempos), não havia touros de morte no roteiro estival.

(Touros de morte em Portugal?, não se pode, tudo o que é excessivo ou sublime deve ser banido do país dos brandos costumes; as boas maneiras devem ser conservadas, recusa-se o segundo copo de vinho, para não estragar a pose, claro, porque essas coisas feias, bem, essas fazem-se em casa, escondidas, os olhos ébrios, ou o touro a sangrar, não é coisa para mostrar em público. E falar baixinho, claro, muito baixinho, não vão os vizinhos acordar…)

Mas desbaratei a herança. A adolescência é esbanjadora, há promessas de vida eterna na pele macia, e nada nos prepara para a lição mais dura: a existência é fugaz, e por vezes é tarde demais para retomar ensinamentos esquecidos. Tentarei. No Corpus Christi já tenho ida aos touros marcada com o meu amigo Juanlu, e connosco levaremos o seu irmão mais novo, num ritual de iniciação à praça de Granada. Antes, ou depois, passaremos pela Gran Taberna, um desses lugares de devoção à Grande Festa taurina, para as cañitas e o presunto.

Tourada em Granada, no Corpus Christi. É um regalo que me ofereço sem a ambição de me (re)especializar na arte. Tento reaver o espólio, mas regressar é difícil, agora. Pago o preço da estupidez e sou castigado por desonrar a memória do meu avô. Mas ele foi-se embora muito cedo, demasiadamente cedo. Não completou as lições. Não me deixou conhecer-lhe os defeitos. E não teve tempo para aplacar os meus.

Carlos Miguel Fernandes

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abril 01, 2008

O País Visto de Longe IV

Para a religião socialista, os contratos de trabalho são para toda a vida. Para a religião socialista, os contratos de arrendamento são para toda a vida. Para a religião socialista, os contratos de matrimónio podem ser "rasgados" em dois minutos desde que uma das partes esteja farta. Seria até divertido ver estes novos beatos em acção se não estivéssemos perante um caminho muito perigoso.

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Carlos M. Fernandes, Busan, Coreia do Sul, 2007

Carlos Miguel Fernandes

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março 31, 2008

Um ou Duas Fotografias

Desde hoje, e até 7 de Maio, a P4Photography apresenta na sua galeria da Rua dos Navegantes, em Lisboa, algumas obras do seu acervo. Francisco Borba, João Cutileiro (sim, esse), João Mariano, José Afonso Furtado, José Cabral, Luís Trindade, Manuel Joaquim Florenço (um nome da Fotografia portuguesa do início do século XX que merece ser mais conhecido), Maria José Palla, Valter Vinagre, Hans Peter van Velthoven e um tal de Carlos M. Fernandes (que participa com a prova Kaluptein n.5, impressa em 2001, e a fotografia Thingvellir(2006), que esteve no ano passado na exposiçao INGenuidades, em Lisboa e Bruxelas) são os nomes presentes na mostra.

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Carlos Miguel Fernandes

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março 27, 2008

As Granadinas II – Depois da Semana Santa

Na última quinta-feira antes da Semana Santa já se respirava um ar diferente aqui em Granada, uma mescla de sagrado e profano que durante uma semana anula qualquer ilusão de livre-arbítrio e nos arrasta como uma onda de euforia. Na confluência da rua Elvira com a Plaza Nueva a movida não destoava das melhores noites de sexta e sábado. No Bar Leon já se sentia a Paixão. (Do outro lado da rua, o restaurante com o mesmo nome estava mais calmo. Em Granada tapeia-se, não se janta. E é assim que deve ser…) As casas Leon são um dos pousos mais nobres da cidade. Fundadas pelo pai Leon, são agora geridas pelos seus dois filhos, os quais continuam a honrar o bom nome paterno. (Honrar pai e mãe, lema que nos guia quando nos debatemos nas malhas da ignomínia.) Os dois irmãos, confrades, vivem a Semana Santa com o fervor dos penitentes. De toda a Espanha recebem os cartazes evocativos da festa católica e logo forram as paredes da taberna com eles, tradição que dá um ambiente irreal e anacrónico à casa, mas não direi único, pois outros bares da cidade têm semelhante obsessão. Estava bem composto o Bar Leon, naquela última quinta-feira antes da Semana Santa, e alguns clientes, confrades também, divertiam-se ao verem-se nas reportagens que a televisão de Granada ia transmitindo sobre os preparativos das procissões. Nos dias seguintes a taberna ficou intransitável, tal como grande parte da cidade, e comer o delicioso ciervo da casa era empreitada para heróis. Mas entre o Domingo de Ramos e a Quarta-feira Santa as coisas ainda correm com alguma fluidez. É na madrugada de quarta para quinta que os ânimos se soltam definitivamente. As ruas enchem-se até ao limite das suas costuras com os turistas recém-chegados, e a festa entra no derradeiro e excessivo estágio. É a noite da procissão Los Gitanos, da Cofradía del Santísimo Cristo del Consuelo y María Santísima del Sacromonte. Dez horas de caminhada durante as quais os ciganos de Sacromonte mostram à cidade a força da sua devoção. Conta quem já assistiu à sua passagem que esta é emocionalmente devastadora.

(Apenas apanhei a cauda da procissão, já ela ia, e eu, pelo Camiño de Sacromonte, uma das mais belas ruas de Granada, o melhor lugar para, durante a noite, pasmar perante o Alhambra iluminado. Atrasei-me. Atrasei-me porque os gambones da taberna Arco Íris, que fica numa ruela que desemboca na calle Elvira, muito perto da porta com o mesmo nome, me distraíram durante algum tempo. Gambones e sardinhas, e a procissão a passar pelo lado ocidental da Elvira. Gambones e sardinhas e a procissão a chegar à Plaza Nueva. Depois, uma hora a perseguir Los Gitanos, e o trono da Virgem já ia junto ao La Buleria quando finalmente avistei a procissão, passava da uma da manhã. O último troço da caminhada dos devotos é terrível. Uma escalada violentíssima até à Abadia de Sacromonte, com chegada ao templo marcada para as quatro e vinte da madrugada. Fiquei pela “minha” zambra, La Buleria, que prometia festa gitana até de manhã. E, no Sacromonte, o prometido é devido.)

Na madrugada seguinte, a estrela é a procissão El Silencio, uma das mais esperadas da Semana Santa granadina. A saída dá-se à meia-noite. As luzes apagam-se todas à sua passagem: Plaza Nueva, San Matiás, Navas, Plaza del Carmen… Às seis da manhã regressa ao templo. Pelo caminho, o silêncio é apenas quebrado pelo ribombar do tambor que guia os nazarenos e os costaleros. Falta-lhe a música, a magnífica música das procissões da Semana Santa. Mas é assim, El Silencio, serena, soturna, introspectiva.

O excesso granadino e andaluz, exacerbado, se tal é possível, pela Semana Santa, continuou no dia seguinte. Eu não aguentava mais. O cansaço apoderara-se de mim, e o tempo mudou radicalmente, desde as temperaturas de Verão do Domingo de Ramos até ao frio glacial da noite da procissão El Silencio, tornando mais desconfortáveis as aventuras nocturnas. (Bienvenido a Granada, assim brincam os meus colegas quando refiro a volubilidade do clima da cidade.) E, de certa forma, o centro da cidade havia-se descaracterizado um pouco desde a noite de quarta-feira. A quantidade de gente que invade as ruas é indescritível. A Gran Vía, larguíssima e cortada ao trânsito, é um rio de almas que se atravessa com cuidado para evitar os choques. Na parte sul do centro, na zona do Plaza de Gracia, um dos meus lugares favoritos de Granada, o ritmo é mais lento. Mais lento pelos padrões da Semana Santa, claro. Mas a vida não se alterou tanto nos bairros Magdalena e Pedro Antonio de Alarcon. Foi lá que terminei a minha primeira Semana Santa em Granada.

Carlos Miguel Fernandes

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março 26, 2008

Mundos Artificiais e Artefactos Naturais

A Madalena Lello convidou-me para escrever um texto para o Saisdeprata-e-Pixels, na sequência dos seus textos sobre Fotografia Científica. Aqui está ele.

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Carlos Miguel Fernandes

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março 24, 2008

O País Visto de Longe III

O ovo da serpente? Ou estamos perante um bicho já bem crescido e com força suficiente para nos sufocar sem piedade? Mas deve ser mais um mito, claro. Tornou-se moda: quando o Leviatão sobe mais um degrau na escala da tirania, a estratégia é gritar Mito!, ou dizer não é bem assim. Os mais afoitos exultam e exclamam, é o Estado a funcionar! Até poderia ser (o que não traria qualquer consolo a um homem livre). Mas, neste caso, receio que a explicação seja a oposta.

Carlos Miguel Fernandes

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março 18, 2008

O País Visto de Longe II

Ainda bem que deixei de usar tripé logo após ter dado os primeiros passos na Fotografia. Caso contrário, poderia ser abordado pela polícia numa próxima visita a Portugal, e não sei se não perderia a cabeça. Deve ser a isto que chamam "o Estado a funcionar". Por um lado até é bom, pois assim os mais distraídos vão percebendo a tirania do regime. Há alguns meses escrevi, e perdoem-me a auto-citação, O caminho para a servidão é curto e não passa necessariamente pela legislação desenfreada. A semente do totalitarismo está muitas vezes adormecida sob leis invasivas e basta aparecer um governo mais empenhado para que as vidas dos cidadãos sejam viradas do avesso num piscar de olhos. Pois é.

Carlos Miguel Fernandes

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março 14, 2008

As Granadinas* – Semana Santa

¡Qué bien van sobre el paisaje granadino de primavera lleno de brotes verdes sobre fondos de nieve y de arboledas exuberantes, junto a decoraciones de pitas y chumberas, flanqueando riscos y cuevas! El Cristo junto al río, la Virgen entre el bosque. Jueves Santo granadino, tras una noche de pitas, hogueras y saetas en labios gitanos. Paisaje inigualable. Paisaje único para la tragedia de la Muerte y para el goce de la Resurrección, con un cielo y una luz, sin igual, para recibir ésta.
Manuel Gallego Morell, Temas Andaluces

Inicio esta série sobre Granada a falar do que não conheço. Vai começar a Semana Santa, a minha primeira em Espanha, e logo em Granada, lugar perfeito para assistir às evocações andaluzas da Paixão. Anda algo no ar, uma alegria indescritível, uma tensão saudável que se diluirá nos próximos dias com a quantidade absurda de procissões que vão invadir as ruas granadinas, tendo quase sempre a Catedral como placa giratória. Desde o Domingo de Ramos ao Domingo da Ressurreição, as marchas sucedem-se, muitas simultaneamente: Los Gitanos, La Encarnación, El Silencio, La Redención, …! Os treinos já começaram há algumas semanas, e é raro o dia em que não me cruzo com uma “tartaruga” metálica com pés humanos, ainda despojada de toda a riqueza ornamental dos tronos. As confrarias enchem-se (ainda mais) de gente ávida de cañas e tapas. Os contadores, nas tabernas, os quais encontrei na posição “cento e tal” quando cheguei a Granada, já se aproximam do zero. Zero dias para a Semana Santa: é a posição mais esperada do ano. É na Semana Santa que o excesso andaluz atinge níveis inimagináveis para o comum dos mortais. É na Semana Santa que esbarra qualquer tentativa de cambio de mentalidades.

Kommt, ihr Töchter, helft mir klagen,
Sehet! Wen?
Den Bräutigam.
Seht ihn! Wie?
Als wie ein Lamm.


Carlos Miguel Fernandes

*O título As Granadinas foi “oferecido” pelo Fernando. Obrigado!

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O País Visto de Longe

Portugal já não é apenas um pântano. É cada vez mais uma ópera bufa.

Bem, em Espanha as coisas também podem ir pelo mesmo caminho. Ainda se brinca com o assunto, mas este pode tornar-se sério:

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Cartel Casa Pepe "Despeñaderos"

Carlos Miguel Fernandes

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