setembro 02, 2010
Nota de Budapeste
(Também n'O Insurgente.)
Estou instalado mais uma vez no bairro judeu de Budapeste. Uma sinagoga, meia dúzia de restaurantes kosher e algumas lojas com uma estrela de David bem visível visível (e um Mr. Chaim, na equipa do hotel, que, como o nome indica, fala hebreu); são estes os frágeis sinais de outros tempos. Entretanto, reparei que o Central Kavehaz está fechado. Parece que está em reformas, e que, para já, não vai ser substituído por um banco. Mas há muito que estou preparado para essa fatalidade. É o tempo. É só o tempo. Daqui não saímos vivos e o melhor é não nos preocuparmos muito.
...
No meu quarto há duas toalhas de cor azul (uma para as mãos e outra para o banho) e duas toalhas cor-de-rosa. É a isto que chamam um “reforço e difusão dos estereótipos opressivos e enraizados numa sociedade patriarcal e compartimentada”? (Não deve ser exactamente assim, mas não tenho a verborreia dos ideólogos do género.) Para esclarecer a dúvida, alguém devia chamar uma brigada de costumes.

Carlos Miguel Fernandes
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agosto 31, 2010
Madrid
A temporada lírica do Teatro Real de Madrid parece-me, este ano, menos interessante (e a direcção musical de López Cobos desaparece de cena). No entanto, começa com um Eugene Oneguin, já na próxima semana, que lamento ter que deixar para trás quando, hoje à tarde, levantar voo em Barajas após uma noite a algumas horas em Madrid. (A viagem é, feita, também, de perda(s).) Mas venham a Madrid. Se López Cobos deixar saudades ou se tropeçarem numa dessas encenações muito modernas e “provocadoras”, há sempre uma barra ou um comedor manchego, asturiano ou extremeño disposto a redimir a vibrante capital espanhola. Tudo condimentado com muito sal, fumo, touros e colesterol. Não aconselhável a "civilizados", portanto.
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agosto 27, 2010
O Zé
"(...) são dias para olhar para o céu e não para dentro de grandes superfícies"
O Zé que fazia falta
Para além de revelar um preocupante alheamento da realidade (Sá Fernandes, na sua redoma de vidro, não deve conhecer quem trabalhe aos domingos, coitado), esta afirmação é um exemplo da arrogância perigosa dos “engenheiros sociais”. Mas quem é que o Zé julga que é para se atrever a dizer o que eu devo e não devo fazer aos domingos? Ninguém, não é verdade? Então aqui fica um recado, para este e outros Zés: metam-se nas vossas vidas.
Carlos Miguel Fernandes
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agosto 18, 2010
Aona ni shio
A tradução literal do ditado japonês aona ni shio é qualquer coisa como “salgar a verdura”, mas o seu verdadeiro significado é “tirar a bazófia ao fanfarrão”. Quando salgamos legumes, estes perdem a água, que se movimenta para o meio mais concentrado em sal, e murcham. Ao processo chamamos osmose, e o ditado japonês transporta o fenómeno químico da natureza para a natureza humana e avisa: a um emproado cobardolas pode sempre extirpar-se a arrogância e deixá-lo apenas com a cobardia, tal como a uma alface se atenua a exuberância da sua cor com uma pitada de sal. Quando escutamos o coro de aplausos à nova lei que regula a produção de pão, e quando percebemos de onde vêm — urbano-socialistas de esquerda e de direita que partilham o medo do sal e a ignorância sobre os limites das esferas pública e privada — não resistimos a perguntar: receiam perder a prosápia, os fanfarrões?
(Também n'O Insurgente)
Carlos Miguel Fernandes
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agosto 11, 2010
Os Factos são Reaccionários
A verdadeira face de um bairro madrileno, vendido ao público como cosmopolita e pitoresco e prenhe de “actividades inclusivas” por associações de vão de escada e por “jornalistas” com uma agenda escandalosamente óbvia e mais peneiras do que ética, talento ou cultura (também os temos, em Espanha). Ou: quando os factos são reaccionários.

Carlos Miguel Fernandes
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agosto 01, 2010
Daba Igual Trabajar o No
La filosofía de autogestión se basaba en el obrero como pieza fundamental de la economía y se trataba de equilibrar el desnivel entre lo que ganaba un obrero y un técnico con estudios universitarios. La educación era gratuita y todo el mundo podía acceder a un título universitario. Pero un licenciado no ganaba mucho más. La diferencia entre el sueldo de un ingeniero, con un cargo relevante en INA (la industria petrolífera de Croacia), y el de señora de limpieza de su propia empresa era insignificante comparada con la que existe en España.
En este sentido la autogestión no estimulaba a los trabajadores, ya fueran cualificados o no. Era muy difícil y existía una gran desmotivación; es decir, daba igual trabajar o no, de todas formas se cobraba. Esto a mi me afectaba, pues me ponía muy nerviosa cuando iba a comprar y el dependiente o dependienta apenas se esforzaba por venderme nada. Para que iba a dejar de cotillear con su vecino o la novela que estaba leyendo si iba a ganar lo mismo comprara yo o no comprara?
Luísa Fernanda Garrido, Diario de Yogoslavia
Os parágrafos em cima transcritos, que são um dos traços do interessante retrato da Jugoslávia dos anos 80 feito por uma madrilena que assistiu à agonia final do ideal pan-eslavo (do sul), contam-nos, em poucas palavras, o deprimente resultado da acção de um Estado omnipresente e paternalista. Mas nem tudo mudou com a queda do Muro, com a desagregação do país, e nem sequer com o fim da guerra. Na Sérvia, ainda há poucos anos podíamos (e julgo que podemos) encontrar hotéis de gestão pública. Eram caros, decadentes, e o serviço… bem, pensem numa repartição de finanças e ficam com a ideia do serviço em hotéis chamados Voivodina, Balkan ou, vá-se lá saber porquê, Splendid. Damos a volta ao mundo e à História, e não há mais volta a dar: o Estado falha até na administração de uma mercearia ou de um hotel, e nem sequer o Estado-modelo de tantos revolucionários não-alinhados, com os seus avançados planos de auto-gestão, conseguiu desempenhar, com sucesso, tarefas aparentemente tão simples. Ficamos por isso surpreendidos ao saber que há ainda tantos crentes na alardeada capacidade da administração pública para tomar conta de algo tão importante como a Educação, só para dar um exemplo. E talvez seja essa a razão pela qual não precisamos de ir tão longe para encontrar quem lhe dê igual trabalhar ou não.
Carlos Miguel Fernandes
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julho 28, 2010
Sul
El contacto, un hombre joven, apresurado y de pocas palabras, con quien se reunió en la cafetería Nebraska de la Gran Vía, no planteaba más que dos opciones: Galicia o el sur de España. Cara o cruz, lo tomas o lo dejas. Teresa preguntó si en Galicia llovía mucho y el otro sonrió un poco, lo justo - fue la primera vez que lo hizo en toda la conversación - y respondió que sí. Llueve de cojones, dijo. Entonces Teresa decidió que iría al sur; y el hombre sacó un teléfono móvil y se fue a otra mesa a hablar un rato.Arturo Pérez-Reverte, La Reina del Sur
A tentação do Sul. As águas tépidas, a luz intensa e amarela, a ilusão da liberdade no caos controlado, a melancolia, o desespero, o sonho. Homens que passam pela vida devagar, a ver os peixes, e outros que se apagam à velocidade de uma lancha contrabandista. E o La Reina del Sur, edição bolsillo, enrugado pela água e pelo sal e a largar a areia que ficará para sempre entre as páginas manchadas por uma onda traiçoeira.

Carlos Miguel Fernandes
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julho 21, 2010
Diagramas (II)
Ah, o senhor pensa que eu, por ser preto, um desses pretinhos moçambicanos das fotografias dos antigos colonos e da Cruz Vermelha e da Unesco, não percebo a loucura dos outros? Percebo perfeitamente.Francisco José Viegas, in Lourenço Marques
Diagramas, de A. Alves, F. Barrocas, I. Correia e M.J. Soares, continua o seu caminho por diversos espaços de exposição em Portugal (agora em Coimbra). O texto que escrevi para o catálogo está agora disponível na minha página, em português, inglês e castelhano.
Carlos M. Fernandes
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julho 20, 2010
Saber o Nome dos Peixes
(…) Dice David que los abuelos decidieran un buen día plantarse para siempre de cara al mar y de espaldas a la tierra y que sólo saben el nombre de los peces y de los vientos y nada de nada de lo que pasa en el mundo (…)Juan Marsé, Rabos de Lagartija
Quem escolhe o mar como guia, mesmo que nunca tenha remendado uma rede ou suportado os humores do Atlântico, sabe que enfrentará o dia em que o mundo desaparece e só ficam os peixes e vento. Não apressa o momento, pois não é um cobarde. Também não o ignora, quando este se assoma, porque a loucura é traiçoeira e a memória nem sempre espera pelo amainar da teimosia. Deseja apenas, serenamente, que não seja a antecâmara da derradeira e desleal sorte de Ulisses, e que possa descansar da longa viagem. Enquanto espera pela última.
Carlos M. Fernandes
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Quando Não São os Nossos
(Publicado há alguns dias n'O Insurgente)
Em 2008, uma associação espanhola para a recuperação da memória histórica, dessas que andam agora muito buliçosas e atrevidas, foi de armas, bagagens e picaretas para Singra, uma pequena povoação de Aragão, em busca dos restos mortais de doze republicanos que se diz terem sido fuzilados, por essas paragens, durante a Guerra Civil. Iam preparados para actos solenes, e talvez até levassem um monumento na mala. Pretendiam esclarecer a história de doze homens assassinados pelos “maus” — acto abjecto, sem dúvida, como tantos outros numa guerra entre irmãos — e ao mesmo tempo fazer a sua propaganda, porque “recuperação da memória histórica”, neste contexto, significa manipular a opinião pública e borrar metade da História. No embuste são levados alguns cidadãos que apenas querem saber o que aconteceu aos seus familiares e prestar-lhes as devidas homenagens fúnebres. Mas, removendo a ténue capa das boas intenções, o que estes exaltados nos têm para mostrar é a sede de vingança dos derrotados e o moralismo de quem se sente iluminado pela razão. E, apesar do nome, um enorme desprezo pela memória. Aquilo que encontraram em Singra, e a forma como reagiram, só veio reforçar esta tese.
Feito o buraco e desenterrados os ossos, descobriu-se que na vala comum não estavam doze republicanos, mas sim trinta e seis soldados pertencentes aos dois lados. Ali foram enterrados por um dos bandos — juntos, como nasceram — após a batalha de Teruel. Descoberto o equívoco, o grupelho abandonou Singra, deixando os ossos daqueles soldados em caixas de cartão que ficaram encerradas numa escola local. Havia “maus” naquela vala e, para além disso, nenhum dos “bons” apresentava indícios de ter sido fuzilado. Não havia nada que se pudesse aproveitar na campanha de manipulação das massas. Eram apenas soldados que haviam caído como soldados e que agora estragavam a festa. Não lhes interessava. Não lhes servia qualquer propósito. Os ossos foram abandonados, sem actos solenes, sem monumentos.
E aqui temos, ilustrado por este curto episódio da nova Espanha, o estranho conceito de “memória” dos moralistas que gostam de ir para as Puertas del Sol sempre que ofendem o seu herói, Baltazar Garzón. Mas, claro, quem não tem cultura não tem memória. Quem faz de modo de vida a destruição do passado, da tradição, em nome de um progressismo bacoco não tem, nem nunca terá, memória. E sem memória, sem passado, somos como os outros animais.
Carlos Miguel Fernandes
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julho 12, 2010
Talibãs com um diploma
Acreditem ou não: uma universidade espanhola propôs um curso de quatro anos cujo objectivo principal é formar profissionais que vigiem o cumprimento da Lei da Igualdade. Reparem como o cerco aperta e tudo se vai tornando claro, claro como a água. Como se não bastassem aqueles que o são por vocação e amor à causa, vamos passar a ter inquisidores formatados por um ensino medíocre e preconceituoso. E era previsível, porque polícias de costumes, ferozes e serviçais, são um instrumento essencial para qualquer projecto de ditadura.
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julho 05, 2010
Não Ando a Dormir


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Tiranetes e tiranetas
O governo espanhol, talvez por ter tido pouco confiança nas capacidades da selecção de futebol, marcou para hoje mais uma manobra de diversão progressista. Espanha ultrapassa meio mundo na corrida para o Homem Novo, proclama o “aborto livre” até às 14 semanas, e aprova uma lei que, entre outros detalhes, — e aqui está a grande novidade, o novo avanço civilizacional do mundo cor-de-rosa de Zapatero — permite a uma adolescente, com 16 ou 17 anos, abortar sem informar os pais da sua situação. A expensas dos contribuintes, claro!, porque quando falha a educação sexual, a educação para a cidadania, ou a educação para vamos-ser-todos-muito-progressistas-e-bem-comportados-e-saudáveis-e-idiotas, há que tapar os buracos com retórica, leis e, principalmente, dinheiro; dinheiro dos outros, ingrediente fundamental para moldar, corrigir, doutrinar. E agora, tal como em Portugal, todos os espanhóis vão pagar as opções e os erros do vizinho (já nem vou falar de moral, e de questões de consciência). Tudo, dizem, porque uma mulher tem o direito de fazer aquilo que bem entender com o seu corpo. Ou quase tudo. Este bando danado, liderado pelas feministas do género e da génera, e que não descansou enquanto não deixou mais este marco no inexorável caminho para a “igualdade”, diz que a prostituição é obra do demo e recusa qualquer passo no sentido da legalização da mesma. Bibiana Aído, a ministra(-bibelô) mais inútil da história das democracias europeias, e com provas dadas de preocupante debilidade intelectual — chamava-se burrice, antes de nos adestrarem na arte da linguagem politicamente correcta —, chegou ao ponto de iniciar uma cruzada contra aqueles castiços anúncios de “massagens” que hoje inundam, e pagam, até o jornal mais orgulhoso. Sobre a liberdade deste Admirável Mundo estamos conversados. Sobre a ignorância, a má-fé e os inquisidores também.
Carlos Miguel Fernandes
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