janeiro 25, 2012

Diários de Paris (7)

Fechado o caso que o levou pelos caminhos de uma Barcelona em transição para a quimera progressista e salubre que é hoje, Pepe Carvalho recebe uma carta de Charo. ¿Recuerdas aquel viaje a París, Pepe? ¿Recuerdas lo mucho que hablé, lo poco que hablaste? ¿Recuerdas lo feliz que fui, lo poco feliz que tú fuíste? Carvalho envelhece, e por isso, entre repastos e borracheiras épicas, procura na eternidade das ruas de Barcelona ou nas hipóteses do mar e dos molhes o remédio contra a mortalidade e a solidão. Charo envelhece e procura apenas um porto seguro. Homem e mulher caminham em sentidos opostos e não têm mais do que um breve instante de malfadada glória durante o qual se encontram no caminho.

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Carlos M. Fernandes, Paris, 2011

Carlos Miguel Fernandes

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janeiro 23, 2012

Diários de Paris (6)

Sábado. O Marais. Depois de comprar blocos de notas na Muji e descansar no pátio da Bibliotheque Historique du Ville de Paris, seguimos pela Rue de Francs Bourgeois até à Place de Vosgues. Ali, no número seis, viveu Victor Hugo, de 1832 a 1848. Naquela época, a praça era um lugar silencioso e tranquilo, vigiado pela estátua equestre de Luís XIII, e assim foi pelo menos até ao segundo quartel do século XX. Hoje não. Hoje não há tranquilidade nem silêncio na Place de Vosges. Hoje não há silêncio em Paris. Só no pátio da Bibliotheque Historique.

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Carlos M. Fernandes, Paris, 2011

Carlos Miguel Fernandes

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janeiro 09, 2012

Memória

(Também n'O Insurgente.)

Nas lendárias e agrestes terras de Castela, entre os pastores, havia (ou há) o hábito de gravar a história de uma família num cajado de madeira. Passo a explicar. Primeiro, o pastor cinzela o seu nome no cajado, e logo os nomes dos seus pais. Quando se casa, depois de um ancestral ritual de cortejo no qual o bastão é o actor principal, ajunta o nome da mulher e dos pais desta. Os filhos, quando chegam a este mundo, também têm um lugar reservado no bastão, e, quando crescem, aprendem as letras de um alfabeto talhado na mesma madeira pelo pastor. Hoje, já não se escreve em papel, muito menos na madeira, quase eterna. Há cada vez mais informação virtual, e, por isso, invisível e efémera; evapora-se como a feromona de uma colónia de formigas em decadência. Quando perdermos o rasto dos nossos antepassados, rasto deixado num cajado, numa biblioteca, ou numa simples mensagem num postal, perdemos a memória. E, como dizia Luís Buñuel, ainda que num contexto mais personalizado: Viver sem memória, não é vida. (…) a nossa memória é a nossa coerência, a nossa razão, o nosso sentir, até as nossas acções. Sem memória não somos nada.

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colecção privada

Carlos Miguel Fernandes

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janeiro 05, 2012

Diários de Paris (5)

Em 1889, Zuloaga vivia em Paris. Partilhava um apartamento de Montmartre com um amigo, o escultor Paco Durio, e morria de fome. As privações, no entanto, não o motivavam a gastar os (poucos) tostões que ganhava, humildes soldos que acautelava para poder comprar um El Greco. Acabou por conseguir o Apocalipse. Regressado a Espanha, guardou o quadro no estúdio da sua casa de Zumaya, situado no meio do jardim, a poucos metros do pavilhão principal. A erva e as árvores assombrosamente verdes do País Basco escondiam, como se de um templo se tratasse, as sombras fantasmagóricas do mestre de Toledo. El Greco es mi dios, dizia.

Carlos Miguel Fernandes

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janeiro 03, 2012

Diários de Paris (4)

Saímos do hotel às onze da manhã. Paris havia acordado com o seu famoso manto de chumbo outonal. Virámos à direita. Na esquina da Drouot com a Rossini, a neblina diáfana que sobrou da noite deixou-nos ver, ao longe, a basílica de Sacre-Couer, majestosa e refulgente como um espectro de marfim. Seguimos pela Bv. Haussman até ao cruzamento com a Halevy. Dali, fomos à Praça da Ópera, onde nos tentaram vender, pela primeira vez, o “conto do anel”. Se esta gente consegue ganhar a vida com um ardil tão desastrado e perceptível, então é mesmo verdade que o turismo europeu está massificado e estupidificado. Deixando o pobre homem com o anel na mão, e contendo o riso, baixámos à estação de metro. E outra vez Azorín: ¡Ah, como nos acordamos de la estación de la Opera, que, por ser la más honda de todas, era en invierno la más caliente y donde nos refugiábamos los días más crudos!

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Carlos M. Fernandes, Paris, 2011

Saímos na Pl. Charles de Gaulle, a “estrela” de Paris e o lugar do Arco do Triunfo. Daqui partem doze avenidas. Descemos uma, os Champ Elysées, até à Georges V. O frio incomoda. Chegámos ao Sena, e desde a margem direita vimos metade da Torre Eiffel; a outra estava perdida na névoa prateada. Seguimos o rio no sentido da ponte Alexandre III. Perto do Petit Palais, mais um “anel” e a mesma história. Não insistiu. E nós também não, porque o frio era intenso: desistimos das ruas de Paris e fomos para o ParisPhoto, realizado este ano no Grand Palais, outro dos fósseis metálicos das Exposições Universais de Paris.

Carlos Miguel Fernandes

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dezembro 25, 2011

Diários de Paris (3)

Na noite do dia 2 de Julho de 1931 Walter Starkie estava na estação de Orsay, Paris. Vinha de Dublin, após cumprir mais um ano académico no Trinity College, e dirigia-se para Espanha, com um violino e alguns andrajos na bagagem. Pretendia viver com menestrel durante um mês, saltando de cidade em cidade, como um cigano e, de preferência, com os ciganos. Em casa, deixava a mulher e dois filhos. E naquele comboio, naquela noite de Verão, sentado no chão de uma carruagem da terceira classe, sob um calor asfixiante comparável ao Calabouço Negro de Calcutá, provava o doce sabor da liberdade.

Carlos Miguel Fernandes

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dezembro 21, 2011

Diários de Paris (2)

A noite chegou a Paris antes de nós. Silhuetas de prédios anónimos recortadas pela escuridão, o comboio, subúrbios, túneis e mais subúrbios. E a Gare du Nord ali estava, imutável, como há doze anos, quando já havia tempo, mas era um tempo ainda brando e cheio de promessas. A vida vem, escreveu Virginia Woolf. A vida vai-se embora. Fazemos a vida.

Descemos a Rue la Fayette. Do lado direito, ainda perto da zona de influência da estação, há um jardim e uma igreja, entre as ruas Bossuet e Fénelon. Foi este último, Fénelon, quem disse, em Éducation des Filles, que as mulheres arruínam e sustentam um casa, regem as coisas domésticas, y, por conseguinte, decidem sobre tudo o que se relaciona mais estreitamente com o género humano. E podia também ter dito que, nas sociedades latinas, como a balança pende mais para o lado feminino, o resultado é uma sociedade cobarde, pouco avessa ao risco. Uma sociedade de meninos. Mas adiante, que ainda há muita la Fayette pela frente até ao cruzamento com a Rue Cadet, essa via estreita atestada de tesouros parisienses. No final da Cadet, já na esquina da Faub. Montmartre com a Provence, há uma maison fundée en 1761: vins, fruits secs, fruits confits, etc, etc. Duzento e cinquenta anos. Muito tempo para estes tempos de tão pouca memória. Louve-se a perseverança.

Instalámo-nos ali ao lado, no Hotel Opera Drouot, Rue de la Grange Bateliere, número 4. O quarto está no primeiro andar, virado para a Bateliere e para o restaurante japonês do outro lado da rua. À direita de quem espreita pela janela, está a esquina da Rue Rossini; o homem, ou o que resta dele, descansa uns quilómetros a leste deste bairro, no Père Lachaise, juntamente com Marietta Alboni, Bizet e Chopin. Este último, sem coração. Não por causa da inevitável corrupção, mas porque o nacionalismo é sempre serôdio e alguns polacos não descansaram enquanto não levaram uma relíquia do compositor para Varsóvia. Voltemos para dentro. No quarto, há espaço para duas camas, uma mesa franzina e uma cadeira. E para alguns movimentos pouco amplos. Na parede, por cima da mesa, está pendurada uma TV plana. Faltam tomadas eléctricas. Serve.

Saímos do hotel. François Mauriac disse que Paris é o lugar do mundo onde nos sentimos mais livres, o lugar onde poderíamos sempre fazer uma coisa distinta da que fazemos. O problema é precisamente esse: em cidades como Paris, por muito interessante que seja o que planeamos fazer, há sempre algo melhor como opção. É estimulante, sem dúvida. É também angustiante. Mas lá descemos a Rue de Montmartre. Depois de algumas voltas, acabámos na Pont Neuf, a mais antiga de Paris, apesar do nome. (Há também a Pont Neuf de Cartier-Bresson, a cortar uma Ile de la Cité com uma cabeleira de árvores de inverno, mascarada de cenário bucólico, uma imagem atípica na obra do fotógrafo francês.)

Está frio. As luzes e a neblina, ténue, dão à cidade um lustre que nos recorda Brassai. A esta hora, Paris não tem cor, veste-se de preto-e-branco. (Mais do que literária, esta é uma cidade fotográfica.) Caminhamos pelas ruas que durante o dia estão intransitáveis e agora escutamos os nossos próprios passos. Está muito frio. Voltamos para Norte, pela Rue du Louvre. Uma cerveja antes de regressar ao hotel. E uma noite descansada a sonhar com outras Paris.

Carlos Miguel Fernandes

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dezembro 19, 2011

Diários de Paris (1)

Ingmar Bergman chegou a Paris no dia 1 de Setembro de 1949. Instalou-se num hotel da Rue Ste. Anne, num quarto alargado como um caixão. Um quarto que, mais tarde, inspirou o ninho dos amantes em O Silêncio. Bergman tinha 31 anos. Ellen e os filhos haviam ficado em Gotemburgo e a traição com Gun Hagberg, com quem o director de Uppsala (ou de Fårö?) partilhava esse Paris outonal, estava envolta numa névoa, constantemente presente mas estranhamente estimulante.

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Azorín chegou a Paris em 1936. Chegou de comboio, instalou-se num hotel contíguo à Estação de Orsay e ali ficou até mudar-se para o Hotel Buckingham, sito na Rue Mathurins, números 45 e 47. La calle de Mathurins es simpática, escreveu Azorín nas suas memórias do exílio em Paris.


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Carlos M. Fernandes, Paris, 2011

Carlos Miguel Fernandes

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dezembro 10, 2011

A Velha Senhora

Quando vim para Granada pensei que ia ouvir Flamenco em cada esquina. Enganei-me. No princípio andava pela cidade em busca dos sinais de uma buleria ou de um fandango, do som de um cajón ou do timbre de uma dessas guitarras que são feitas por mãos vagarosas na Cuesta de Gomérez, entre a Plaza Nueva e a Alhambra. Não encontrei. É preciso estar com muita atenção, ou então ir aos limites clássicos e perenes da cidade, ao lendário Sacromonte. Mas mesmo assim, mesmo no bairro mais cigano de Granada, casa de algumas das mais ilustres famílias do Flamenco andaluz, há que fintar as camionetas de turistas e os rebanhos de japoneses levados pelo pastor. As novas gerações não sabem o que é o Flamenco, nem querem saber. Preferem pastilhas, cocaína e ruído. Vão ao sabor da horda. Julgam-se hedonistas e únicos, individualistas, mas não são mais do que uma parte suprível de um horrendo organismo sem cabeça.

Quem for a Lisboa a pensar que vai ouvir Fado em cada esquina engana-se. O verdadeiro, aquele que cheira a vinho e tabaco, que corta como uma navalha da Lisboa desaparecida, está escondido, bem escondido, para que a “modernidade” não o esmague definitivamente. É um ritual para mestres e iniciados. Sobra o Fado limpinho, lamechas, amálias de quinta categoria que cantam para turistas apressados. As novas gerações passam ao lado do Fado. Preferem pastilhas, cocaína e ruído…

Quem vai a New Orleans a pensar que vai escutar Dixieland em cada esquina…acerta. A cidade vive do jazz, respira jazz, transpira jazz. E não apenas no bairro francês, para turista ver. Entremos no temível Tremé e ouçamos as multitudinárias bandas de metais, o Tio Lionel ou, se tivermos sorte, Kermitt Ruffins. Entremos numa dança de segunda linha (second line dancing), de Carnaval, de uma simples festa, ou de um dos funerais atípicos de New Orleans, e sigamos pelas ruas até à exaustão. Sim, New Orleans é música, a sua música, a que nasceu no delta do Mississipi e nos bayous. Diz-se, no entanto, que os americanos são ignorantes, que não têm cultura, que destroem tudo aquilo em que tocam, e que não sabem qual é a capital da Estónia. Os europeus, esses, julgam-se os guardiões da cultura ocidental, o acme da civilização. Talvez porque têm muitas comissões e comités-de-defesa-de e organismos-para-a-promoção-de. Ou talvez porque se revêem na imagem daquela senhora de pele branca como uma máscara fúnebre, carrilhos ligeiramente rosados que não disfarçam a palidez, espartilho a esconder carnes frouxas e uma peruca poeirenta a cobrir a cabeleira escassa, que demora mais tempo a vestir-se do que tarda o Anel de Wagner, e que vai para o teatro com binóculos atrevidos, mais preocupada com o que se passa nos camarotes do lado do que com o palco. A senhora morreu e ainda ninguém a avisou.

Carlos Miguel Fernandes

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dezembro 05, 2011

Onde Estão os Homens Serenos?

Azorín, quando vivia em Paris, gostava de contemplar os pescadores do Sena. Eram homens pacientes, impassíveis perante qualquer adversidade: no solían pescar nada estos pescadores del Sena; solo de raro en raro extraín de las turbias ondas algún mísero pececillo. Já não se vêem pescadores, nem no Sena, nem no resto do mundo “civilizado”. Para os encontrar, temos que visitar lugares esquecidos: um braço de uma ria algarvia, uma ilha tunisina, um farol que parece flutuar no meio de um fiorde montenegrino. O que aconteceu? Não sabemos, mas dizem que a pesca é um “desporto” de homens — e, opiniões à parte, há evidências que dão força à tese (apontem uma mulher que pesque e têm a excepção que confirma a regra). Talvez seja mesmo assim, talvez seja coisa de homens porque só estes têm aquela serenidade que lhes permite dedicarem-se a uma actividade aparentemente inconsequente. E só eles sentem, pelo menos uma vez na vida, o apelo da solidão. Ora, parece que o mundo está cada vez menos masculino, mais “igual” (menos diverso e mais aborrecido, diria um cínico). Feminizou-se (o mundo; mas os homens também, diria outra vez o cínico). Não fazemos juízos de valor: o rumo do mundo importa-me uma pevide, desde que não seja conduzido por esses iluminados que julgam saber o que é melhor para os outros. E o sonho masculino e o pragmatismo feminino são faces da mesma moeda, a moeda humana. Mas, quando nos sentimos cercados pelos toques constantes do telemóvel alheio, pelas rédeas curtas, pelo ruído, pelos compromissos e cedências, pelo conformismo e resignação, quando nos afogamos, involuntariamente, nesse vórtice moderno, sentimos, por um momento (um largo momento), saudades dos homens serenos. Daqueles homens que, apenas com um baralho, virados para os reflexos imaginários de si mesmos que os encaravam desde o outro lado da mesa (só a solidão nos dá uma imagem passável de nós próprios), gastavam uma, duas, três horas, um dia, se fosse preciso, pousando e levantando cartas, imersos nos seus universos mais secretos e íntimos. Daqueles homens que andavam quilómetros, tranquilamente, com as mãos enlaçadas atrás das costas, sem murmurarem sequer um assomo de palavra. Daqueles homens que pescavam. Mas já não há privacidade, nem solidão, nem silêncio. O homem da Idade do Áifóne não já reconhece estes conceitos. E muito menos a mulher.

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Carlos M. Fernandes, Islândia, 2006

Carlos Miguel Fernandes

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